A burocratização do nascimento!

– Parto Hospitalar (particular, equipe humanizada): gestante avaliada no consultório com 6 cm de dilatação passa 1 hora e meia peregrinando pelos hospitais de Brasilia até conseguir internar (um o plano de saúde decidiu não cobrir a partir desse mês, o outro fechou a maternidade, o outro não tinha vaga, o outro estava com a UTIn lotada, e por aí vai…). Consegue uma vaga já com dilatação total, mas precisa passar por uma enorme burocracia de internação no meio de dezenas de pessoas doentes que ela nunca viu na vida (e que olham assustadas a cada contração). Vencida a primeira etapa e após um parto super rápido e tranquilo (com mais diversas pessoas desconhecidas na sala de parto que fazem pelo menos 2x as mesmas perguntas de rotina – mais burocracia – em pleno período expulsivo), ela fica presa no centro obstétrico por 3 horas esperando a próxima burocracia liberá-la para o quarto, onde os familiares (incluindo os filhos mais novos) aguardavam p/ conhecer o bebê. Nesse período, ela estava morrendo de fome mas não podia comer dentro do CO. Ela também queria amamentar, mas não se sentia à vontade ao lado de várias outras mães cesariadas e seus acompanhantes na sala de recuperação (além de não conseguir posição adequada na maca e com os braços ocupados pelo medidor de pressão, oxímetro, etc) . O bebê, que nasceu com apgar 9/10, foi levado p/ os cuidados em outra sala e só voltou após a primeira hora de vida, tendo passado por todas intervenções de rotina (aspiração, esfregação, nitrato de prata, etc).

– Parto Domiciliar Planejado (mesma equipe do parto hospitalar acima): gestante começa a sentir contrações, continua dormindo nos intervalos e liga p/ doula quando estão regulares. Equipe (doula, enfermeira e médica obstetra) vai até sua casa e constata 4 cm de dilatação. Enquanto ela está tomando banho em seu chuveiro, toma o açaí com frutas que sua sogra preparou e brinca com seus cães e gatos entre uma contração e outra. Deita na cama, descansa no colo do marido, pula na bola, caminha no jardim. Entra na piscina inflável com a água bem quentinha e ganha seu bebê sob os olhares apenas de quem ela havia escolhido para estar presente nesse momento (a equipe, seu marido, seu pai, seu irmão, sua sogra e seus animais de estimação). Uma hora depois, senta conosco na mesa, almoça normalmente e come uma torta de morango, brindando esse momento com vinho do porto enquanto o marido toca no violão a música que compôs para a filha. O bebê foi avaliado e pesado ao lado da mãe, mamou durante toda a primeira hora de vida e não sofreu nenhuma intervenção desnecessária. Um processo familiar, fisiológico, festivo. Como realmente é.

Ambos os partos foram rápidos, tranquilos, incríveis e emocionantes. Mas as duas parturientes não tiveram a chance de vivenciar esse momento da mesma forma – embora estivessem com a mesma equipe (obstetra e doula). Sabem pq? Porque o sistema não deixa. A lógica hospitalar brasileira não deixa. Tudo funciona de uma maneira que faz a gestante se sentir dentro de uma linha de produção ou dentro de um processo extremamente complexo, como se ela tivesse uma doença grave. E esse é um dos motivos pelos quais tantas pessoas estão buscando outras alternativas.

Desde 2008, a RDC36 diz que todo hospital deveria ter uma sala PPP (pré parto, parto e pós parto), onde a mulher pode ficar do início ao fim da sua internação, em privacidade, sem necessidade de deslocamento! Em Brasília, por exemplo, adivinhem quantos hospitais oferecem isso? nenhum! Além disso, nenhum hospital permite que a gestante ou a equipe escolha o pediatra ou o anestesista de confiança (somos obrigados a nos contentar com os plantonistas do momento, que normalmente passam bem longe da humanização)!

E isso porque estamos falando dos hospitais privados com equipe particular!! No SUS, a realidade é ainda pior: muitos hospitais não respeitam nem mesmo a lei do acompanhante, os partos normais são repletos de intervenções de rotina, faltam profissionais, a estrutura é extremamente precária, etc. Claro que existem exceções, mas elas dependem muito mais da sorte de encontrar uma boa equipe de plantão do que qualquer outra coisa.

Esse post não é uma apologia ao parto domiciliar. Muito pelo contrário! É uma súplica para que a assistência hospitalar melhore! Entendam: o parto domiciliar é para poucas mulheres. Para aquelas que se enquadram nos protocolos, que desejam, que se sentem seguras, que podem pagar uma equipe qualificada. Conheço várias famílias que escolhem o parto em casa porque é a única alternativa possível para fugir do excesso de burocracia e das intervenções desnecessárias. Mas o parto domiciliar não deveria ser uma alternativa de fuga, e sim uma escolha…

Que todas as famílias possam vivenciar esse momento com o máximo de acolhimento (e protagonismo) possível, independente do local em que escolherem para o nascimento. Essa é a nossa luta.

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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