A sensibilidade da doula

Um dia desses uma das médicas obstetras com quem eu mais trabalho acompanhando partos como doula me contou que seu marido (também GO) lhe perguntou: “mas a Érica faz exame de toque?”, uma vez que eu sempre a chamo na fase ativa do trabalho de parto e costumo brincar de dizer quanto de dilatação eu imagino que a mulher esteja antes do exame. Com algumas exceções (afinal, obstetrícia pode ser sempre uma caixinha de surpresas), acabo acertando não apenas a dilatação, mas também a estimativa de que horas o bebê deve nascer (obviamente sem falar nada p/ a parturiente, para não gerar nenhum tipo de expectativa). Algumas vezes ela já me perguntou como eu fazia para saber essas coisas sem ter nenhum parâmetro objetivo como referência.

Então fiquei pensando sobre isso…

A verdade é que não faz parte do papel da doula ter qualquer tipo de responsabilidade ou função técnica sobre o parto, portanto, eu nunca fiz exame de toque em mulher alguma. Mas justamente por isso, e tendo acompanhado algumas centenas de partos nesses 8 anos de atuação na área, pude ter a oportunidade de aguçar outros tipos de sentidos muito mais profundos e subjetivos do que uma medida de dilatação em centímetros, por exemplo. A impossibilidade de ter outros referenciais e o fato da doula ser uma profissional de suporte contínuo (ou seja, que praticamente não sai do lado da mulher durante todo o processo) fez com que eu desenvolvesse a capacidade de fazer uma leitura mais ampla de cada detalhe que está presente nesse momento: cada som que a mulher emite, o seu comportamento durante e após as contrações, a forma como ela conversa, o tom do seu gemido, a frequência de sua respiração, as posições que ela escolhe ficar, os movimentos do seu corpo, as secreções que saem dela (vômito, líquido amniótico, cocô, suor, sangue…), suas sensações, vontades, aversões…o intervalo, a intensidade e a duração de suas contrações…tudo isso me fornece informações preciosas a respeito da evolução daquele trabalho de parto que jamais poderiam ser colocadas em um gráfico ou uma planilha.

Porque no final das contas ser doula é isso…é estar presente, é prestar atenção nos mínimos detalhes para tentar antecipar a necessidade daquela mulher que está ali na sua frente, vivenciando um momento tão intenso quanto transformador!

Temos sim uma série de conhecimentos, técnicas (de massagem, respiração, visualizações) e ferramentas (bola, banqueta, massageadores, óleos essenciais e dezenas de outras coisas) que podem ajudar a mulher a sentir menos dor, ou se sentir mais confortável. Mas cada vez mais eu me convenço de que a verdadeira diferença que a doula faz é a sua experiência e sua capacidade de estabelecer uma conexão com aquele momento que não é apenas fisiológico, mas social, emocional, espiritual, familiar…

Como é bom poder ajudar tantas mulheres a passar por esse ritual de passagem que é o parto! Agradeço todos os dias ao Universo por ter me colocado nesse caminho e nessa missão de vida!

Foto: Ana Paula Batista

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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