A tal “cartilha da maternidade perfeita”

Esses dias eu recebi um feedback de uma seguidora agradecendo pelos posts que eventualmente podem soar como um puxão de orelha (por ex. quando eu falo das consequências do uso indiscriminado de bicos artificiais, de telas, dos treinamentos de sono, etc)! Ela disse que estava repensando algumas escolhas para quando tiver o seu segundo filho, pois fez algumas coisas com o primeiro, por pura falta de informação, que hoje se arrepende! E eu fiquei feliz em perceber que embora algumas pessoas possam se sentir em um primeiro momento “julgadas” por alguns conteúdos compartilhados aqui, eu sei que a maioria entende que esse NÃO é o objetivo dessa página. Eu não pretendo de forma alguma incentivar nenhum tipo de mãezímetro, competição ou culpabilização, mas quero sim encorajar a auto responsabilidade e a consciência em cada escolha que envolve a maternidade! 

Quando por qualquer motivo nos sentimos “atacadas” pela simples expressão de alguma opinião ou evidência diferente da nossa prática ou realidade, devemos primeiramente olhar para dentro de nós e refletir se existe alguma ferida aberta ali, referente àquele assunto, pronta para sangrar quando tocada. No processo profundo de auto conhecimento e reflexão que a maternidade nos traz, muitas vezes algumas feridas são mesmo cutucadas, principalmente quando a criança que nós fomos um dia percebe que sua própria infância poderia ter sido diferente se houvesse naquela época o acesso a algumas informações que hoje estão disponíveis com maior facilidade.

Quem se conforma em seguir a boiada e pretende continuar repetindo o lema de que “na minha época era de tal jeito”, “todo mundo faz assim e estão todos vivos”, ou “apesar de todas as evidências, fiz tal coisa e a minha filha é super saudável”, certamente vai se sentir incomodado com bastante frequência por aqui! Neste espaço eu não estimulo e não apóio esse pensamento que embasou a geração de sobreviventes que nós fomos (quem tem a minha faixa etária viveu na pele o auge das propagandas contrárias ao aleitamento materno, a hospitalização e coisificação extrema do processo de gestar e parir, a ascensão da cesariana como a via de parto supostamente mais segura, a banalização das palmadas e castigos como métodos educativos, etc). Sim, nós sobrevivemos! E pagamos muitas vezes um preço alto por isso em nossa saúde física, mental e emocional! 

Porém, como profissional, como mãe e como cidadã eu quero ver uma sociedade que pode fazer melhor do que isso, formada por famílias empoderadas, criando seres humanos questionadores e verdadeiramente saudáveis, não apenas obedientes ou sobreviventes de condutas que nunca mataram ninguém! Aqui é um espaço para se perguntar se poderíamos estar fazendo melhor do que fazemos. Para questionar. Para oferecer informações que muita gente nem sabia que existia, e por isso seguem reproduzindo condutas que muitas vezes já não são mais adequadas com seus filhos. 

Não quer dizer que eu seja uma mãe perfeita, até porque isso não existe. Eu sou uma mãe possível, uma mãe suficientemente boa, como já dizia o velho Winiccott! Mas que está sempre tentando melhorar! E só de compartilhar com vocês o que acredito e encontrar outras pessoas que pensam semelhante eu me fortaleço quando quero cair na tentação de recorrer a algum atalho que poderia me deixar arrependida no futuro. Eu não vejo problema em sair do “protocolo da maternidade perfeita” e adequar algumas recomendações à minha realidade, ou de dizer “muito legal isso aí na teoria, mas isso não serve para mim”! Mas o importante é que se isso acontecer eu sei exatamente o que estou fazendo, com todos os seus riscos possíveis e consequências prováveis. Como sempre, eu defendo a escolha CONSCIENTE! Faça o que quiser, mas saiba as consequências de cada escolha. Aqui é um espaço onde se respeita a diferença, mas não se passa a mão na cabeça para dizer que é tudo a mesma coisa, que no final dá tudo na mesma! Porque isso não é verdade! 

E é por esse motivo, sabendo que muita gente quer se aprofundar mais em alguns assuntos, repensar outros e questionar o senso comum…sabendo que nunca é tarde para mudar, que pode vir o segundo (ou terceiro, ou quarto…) filho, ou mesmo netos…que eu continuo nadando contra a maré e compartilhando com vocês não apenas as evidências científicas e recomendações oficiais (que eu adoro estudar), mas o meu maternar real e possível, que pode (e deve) ser diferente do de vocês, pois assim a gente vai trocando e aprendendo juntas! Como vocês, eu sou apenas uma mãe que está tentando acertar, mesmo em meio ao caos! E se você também está tentando acertar, não importa se o seu bebê dorme no próprio quarto desde o primeiro dia, em um berço acoplado ou em cama compartilhada. Se come papinha ou BLW. Se usa fralda de pano ou descartartável. Se por algum motivo faz uso de chupeta ou mamadeira. Se você desligou o piloto automático, fez qualquer tipo de ESCOLHA após ter acesso às diversas informações disponíveis e também está tentando dar o seu melhor, como eu, então estamos do mesmo lado!

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