Álcool e amamentação

Hoje vou aprofundar no assunto polêmico que virou o protagonista de dúvidas do último post sobre ter mais leveza na maternidade: álcool e amamentação! 

Começo lembrando que gestação e lactação são momentos fisiológicos completamente diferentes e que de acordo com as evidências disponíveis atualmente o consumo de álcool na gestação deve ser ZERO! Isso mesmo! Não há dose segura e até onde se sabe podem haver prejuízos inclusive no golinho dado no copo do marido. Já na lactação, a coisa muda um pouquinho, e as mães que gostam de tomar um vinho na sexta feira assistindo netflix ou um drink com as amigas podem respirar aliviadas – DESDE QUE elas leiam esse texto todo aqui e estejam certas de que entenderam tudinho para fazer uma ESCOLHA CONSCIENTE, porque também não é oba oba

Antes de afirmarmos que no mundo ideal é melhor ninguém ingerir nenhuma bebida alcoólica nunca, é preciso lembrar que uma parcela significativa da população feminina tem o hábito de beber (seja socialmente, seja regularmente) e que ao engravidar essas mulheres serão orientadas (com razão) a não beber nada por 9 meses. Mais para frente, elas irão se deparar também com a recomendação da OMS de que deveriam amamentar por no mínimo 2 anos. Portanto, se apenas dissermos para essas mulheres que elas simplesmente não podem beber por cerca de 3 anos de suas vidas, vocês hão de convir que uma parte delas vai acabar desmamando precocemente por termos acrescentado desnecessariamente regras que dificultam ainda mais uma fase já repleta de privações, retirando assim do bebê todos os benefícios do leite materno e da amamentação prolongada. Então vamos aos fatos, e a partir daí cada mulher escolhe o que faz.

Diversos estudos a respeito do consumo de álcool no período de amamentação já foram realizados, alguns dos quais evidenciaram determinados riscos para o bebê em seu desenvolvimento cognitivo e psicomotor (sobretudo quando as mães bebiam 2 doses ou mais DIARIAMENTE). Em grandes quantidades, os efeitos da bebida alcoólica no bebê amamentado também podem causar sonolência, fraqueza e ganho de peso anormal. No entanto, os estudos recentes, incluindo revisões sistemáticas que reuniram todos eles para comparar os resultados, indicam que a ingestão alcoólica e a amamentação são compatíveis se a mãe desejar, desde que observadas algumas questões. 

É sabido que o nível de álcool atinge seu pico de concentração no leite materno cerca de 30 a 60 minutos após a ingestão, sofrendo variações conforme a ingestão de alimentos da mãe (se consumida com alimentos, a absorção da bebida é menor) e seu peso (quanto mais pesada a pessoa, menos tempo seu organismo demora para metabolizar). São necessárias em MÉDIA 2 horas a 2h30 (verificar tabela para um cálculo mais preciso) para metabolizar uma bebida padrão, como 140 ml de taça de vinho, 340ml de cerveja ou 40 ml de destilado (a depender do teor alcoólico de cada uma). Ou seja, se uma mãe de 60 KG e 1,62m tomar apenas uma dose, em cerca de 2h20 esse álcool terá sido eliminado da corrente sanguínea dela e consequentemente do sue leite. Se ela tomar 2 drinks, então serão necessárias quase 5 horas para o corpo eliminar todo o álcool, e assim sucessivamente. Não é necessário tirar o leite e descartar com o objetivo de “limpar” o corpo, pois o álcool irá sair por conta própria na medida em que sua concentração diminui também na corrente sanguínea. 

Portanto, se a mãe se contenta com apenas 1 drink para matar sua vontade, temos então uma excelente notícia para ela, já que 2 horas de intervalo entre as mamadas é perfeitamente razoável em bebês um pouco maiores que já apresentam espontaneamente uma demanda mais espaçada de leite. Mas, se você estava tomando sua tacinha de vinho logo após amamentar e 1 hora depois o seu bebê pediu para mamar novamente, saiba que mesmo se ele for amamentado com a concentração máxima daquela dose no corpo, ele vai receber apenas 3% a 6% da dose materna ajustada ao peso (o que em termos práticos seria: se você tiver por exemplo 0,05% de álcool no sangue – o suficiente para ser pega numa blitz em qualquer lugar do mundo – você terá exatamente essa mesma quantidade no leite, o que ainda será 10x menos do que boa parte das cervejas sem álcool vendidas no mercado – que contém até 0,5% de álcool). Por isso, mesmo em um caso pontual de um consumo maior de bebida, as crianças não seriam submetidas a quantidades clinicamente relevantes de álcool. Desde que em consumo esporádico, não foram encontrados prejuízos no neurodesenvolvimento do bebê, embora tenham sido encontradas mais interrupções de sono (não irei me ater a quantidades, uma vez que cada estudo fala uma coisa. Nessas horas é sempre melhor apelar para o bom senso). No entanto, ainda não são conhecidas consequências em longo prazo para filhos de mães que abusam do álcool regularmente. 

Ainda que uma pequeníssima parcela de teor alcoólico chegue ao bebê, é prudente recomendar que as mães evitem ingerir álcool quando o bebê for prematuro, clinicamente instável ou possua a função renal debilitada. A idade do bebê também é uma das variáveis importantes, devendo haver mais atenção enquanto o bebê é recém nascido (ao menos nos primeiros 2 meses) ou se está em aleitamento materno exclusivo, tanto porque a amamentação é muito frequente, quanto porque ele ainda não é capaz de metabolizar adequadamente esse tipo de substância. 

Caso a mãe ainda assim opte por beber nesse período, uma forma de minimizar a exposição do lactente é fazer a ingestão imediatamente após alimentar a criança para evitar que a próxima mamada coincida com o momento de maior concentração sérica do álcool, dando preferência ao período de maior sono da criança e procurando ingerir alimentos junto com a bebida. Em lactentes em aleitamento materno exclusivo (com alta frequência de mamadas e nenhuma outra fonte de nutrientes), é desejável que a mãe realize a extração e o armazenamento do seu leite antes da ingestão alcoólica, para oferecer caso o bebê solicite antes do intervalo necessário até que o álcool saia do organismo. 

Outro ponto importante dessa equação é o fato de que o consumo alcoólico em doses acima de 1,5g/kg está associado a um efeito supressor sobre a secreção de ocitocina, havendo então uma diminuição temporária no reflexo de ejeção de leite, cujos efeitos duram somente o período em que o álcool está no sistema. Portanto, se a mãe beber em grande quantidade ou regularmente, é possível que esse mecanismo afete o crescimento do bebê, interferindo no suprimento geral de leite após uso crônico. 

O que dizem os grandes órgãos? A OMS classifica o uso de álcool pela nutriz como uma condição materna durante a qual a amamentação pode ser mantida, atendendo a determinados critérios, e a Associação Americana de Pediatria alerta que a exposição do álcool pode prejudicar o julgamento materno e interferir nos cuidados com a criança. 

Então aqui entramos no ponto principal dessa conversa: o maior problema quando a mãe (ou qualquer um dos genitores) está sob efeito de álcool, é quem vai cuidar do bebê! Nesse caso, independente da dose consumida, a mãe não deve fazer cama compartilhada, pois seus reflexos naturais serão afetados, e não deve de forma alguma dormir com o bebê em poltronas ou sofás. 

Abaixo, um quadro de recomendações da Associação Australiana de Amamentação para mães que fizerem uso de 3 drinks ou mais por dia:

Resumindo: quando a mãe que amamenta bebe ocasionalmente e limita seu consumo, a quantidade de álcool que seu bebê recebe não se provou prejudicial. É improvável que uma taça de vinho ou um copo de cerveja 2x por semana faça alguma diferença, e os efeitos diminuem à medida que o bebê cresce. Se a mãe deseja beber garantindo que não chegue absolutamente nada ao seu filho (principalmente nos casos citados acima), deve seguir o intervalo determinado na tabela para amamentar novamente e se necessário ofertar leite ordenhado previamente (lembrando que o leite materno, ainda que com algum teor álcoolico, continua sendo melhor do que oferecer fórmula). Se a mãe bebe regularmente em grande quantidade, ela deve ser encorajada a procurar um profissional de saúde para averiguar se seus hábitos são compatíveis com a amamentação ou mesmo com cuidar de um bebê. 

Ah, antes que perguntem sobre o teste chamado  Milkscreen™ que é vendido no exterior (encontrado no Brasil por cerca de R$200,00) e funciona como um “bafômetro de tetê”, ele pode ser usado para detectar resíduo alcóolico no leite em concentrações maior ou igual a 0,017%, ou seja, ele é EXTREMAMENTE sensível e dará positivo para qualquer teor alcóolico próximo do zero presente no leite. Não vejo necessidade de usar se a mãe souber o horário do último gole e fizer aquelas continhas acima, até mesmo porque vem apenas 20 fitinhas em cada caixa e – com o dólar a quase 5 reais – provavelmente vai sair mais caro o valor de cada fita utilizada do que a própria bebida que a mãe está ingerindo, rs.

Material de estudo complementar:

https://www.nhs.uk/conditions/pregnancy-and-baby/breastfeeding-alcohol/

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1111/bcpt.12149?fbclid=IwAR2xByzYHACbN6cwUzbLiobNej5aRJyYxoUVyUlC-pqPvxOE9teKxajMMmE

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/dar.12473

http://revistadepediatriasoperj.org.br/detalhe_artigo.asp?id=1042

Dr. Jack Newman’s Guide to Breastfeeding 

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