Amamentação – meu relato

Primeiro quero deixar claro que essa é a minha experiência pessoal e referente ao primeiro mês de vida do Pedro, ou seja, muita água ainda vai rolar e talvez alguns outros desafios estejam por vir! Não quero ser um exemplo e nem ditar regras para ninguém, apenas responder sobre um assunto que vocês têm me perguntado e aproveitar para fazer uma reflexão sobre como às vezes somos levadas a desacreditar em nosso próprio corpo e na natureza, tanto no parto como no aleitamento! 

Assim que o Pedro nasceu, achamos que ele estava fazendo pouco xixi e estava um pouco sonolento para sugar (ele também nasceu com o queixinho e lábio inferior um pouco p/ dentro e por isso a pega não estava tão boa), então nos primeiros 3 dias eu ordenhei colostro com ajuda das enfermeiras do banco de leite para oferecer no copinho entre as mamadas e ter certeza que não iam inventar nenhum motivo para me segurar no hospital além do estritamente necessário! Com isso, ele perdeu apenas 5% do peso do nascimento em 48 horas e na primeira consulta pediátrica com 5 dias ele já estava recuperando esse peso (é considerado normal que o bebê perca até 10% do seu peso)! Eu corrigia a pega dele em quase todas as mamadas – hoje eu ainda corrijo, embora ele já mame muito melhor e já faça “sucção não nutritiva” apenas no bico do peito quando ele está saciado e quer só aquele “colinho” extra! Nesse caso, eu confio nos mecanismos de saciedade dele e deixo. Afinal, se eu optei por não dar chupeta, deixo que ele tenha toda a necessidade de sucção atendida apenas com o peito.

Do terceiro para o quarto dia eu estava começando a sentir a apojadura acontecer e chamei uma consultora em aleitamento para fazer uma sessão de laser no meu mamilo direito que estava um pouco fissurado e me ensinar técnicas de ordenha, massagem, etc (achei que o bicho ia pegar dali pra frente e eu ia precisar usar todas as ferramentas que eu já conhecia na teoria)! Mas, para a minha surpresa, foi tudo SUPER tranquilo a partir daí! Eu mal senti a apojadura acontecer, meu seio desde então nunca empedrou ou ingurgitou, nunca precisei fazer ordenha de alívio, massagens, nadinha! Sequer tirei a bomba elétrica de leite da caixa (farei isso quando começar a precisar deixar um estoque em casa p/ ele, mas por enquanto ainda não precisei)! Se eu tentar ordenhar manualmente, não sai praticamente nada! Meu seio não vaza, então eu nunca usei absorventes, concha, etc! Sutiã de amamentação eu só coloco quando eu vou sair de casa, receber alguma visita e olhe lá! Não sinto o peito cheio hora nenhuma e nem sinto esvaziar depois que o bebê mama (talvez por causa da prótese mamária essa percepção fique um pouco prejudicada)! Externamente, está tudo praticamente igual ao que era antes dele nascer! O mamilo está um pouco mais sensível sim, mas nada que me impeça de colocar roupa por cima! Não tomo mais água do que já tomava antes e nem tomei nenhum chá, nem ingeri qualquer outra coisa que “aumenta a produção de leite”!

Mas não estou falando nada disso para me gabar, muito pelo contrário! Com esse cenário que acabei de descrever, e com o Pedro querendo mamar o dia inteiro (às vezes ele mama de 30 em 30 minutos, e os intervalos nunca passam de 1 ou 2 horas, incluindo no período da noite), eu poderia muito bem ter pensado que eu tenho pouco leite, que qualquer choro dele era de fome, que meu leite era fraco, e ter iniciado uma complementação com fórmula, principalmente no fim do dia quando às vezes ele fica bastante irritado. Afinal, a gente associa ter muito leite com o seio cheio, ingurgitado, esguichando, pingando, vazando na roupa…

Antes das consultas com o pediatra eu ficava tensa, contando as fraldas de xixi que ele fazia por dia, me perguntando se ele estaria ganhando peso! Mas respirava, me lembrava de tudo que eu já havia estudado e tentava me sentir auto confiante de que via de regra a natureza sabe o que fazer, e que todo o resto é exceção! Em vez de questionar minha capacidade de amamentar, eu pensava que se meu corpo estava funcionando assim eu só deveria levantar as mãos para o céu e agradecer que minha demanda está ajustada desde o início e que a amamentação não está sendo um martírio pra mim! 

Com 15 dias de vida, na segunda consulta com o pediatra, uma boa notícia: ele já estava ganhando peso super bem, em um ritmo de 45g por dia (o dobro da “média”, que é cerca de 20 a 25g por dia)! Na consulta de 1 mês, ao descrever o comportamento irritadiço do Pedro à noite (que depois descobri ser o tal do “efeito vulcânico”) e o fato dele querer mamar toda hora, senti que o pediatra desconfiou de uma baixa produção de leite, mas na hora de pesar, outra boa notícia: ele continuou engordando os 45g por dia (ou seja, em 1 mês, ele ganhou 1,4KG em relação ao peso da alta)! Portanto, minha intuição estava correta: o meu corpo estava funcionando perfeitamente e alimentando o meu bebê, ainda que todos os sinais externos pudessem me deixar em dúvida sobre isso! 

É claro que existem sim situações de baixa produção de leite, mas é igual a cesariana por “falta de dilatação”: é MUITO RARO esse diagnóstico estar correto! Se formos pensar, é absolutamente contrário à própria sobrevivência da espécie que isso aconteça! O que mais existe é falta de informação adequada, falta de rede de apoio, falta de bons profissionais que apoiem verdadeiramente o aleitamento e, às vezes, até mesmo falta de vontade da mãe em amamentar (sem julgamentos ok? Mas existem mulheres que de fato não fazem questão da amamentação exclusiva e tudo bem assumir isso)! 

Eu sei que vai chover comentários com relatos detalhados sobre produção insuficiente de leite, igual aos posts de parto onde falo sobre a falácia da falta de dilatação! Mas com os 50 mil seguidores que tenho, se uma baixa produção de leite verdadeira tiver acontecido com 1% já seriam 500 relatos dizendo “mas eu realmente produzia pouco leite e precisei complementar com fórmula”, dando a impressão de ser algo super comum (exemplo: quando eu postei sobre o exame de sexagem fetal – que tem uma margem de 1 erro a cada mil exames – eu recebi quase 10 directs de gente falando que seu exame veio errado, mas se formos diluir isso em 10 mil pessoas que viram esse story, estaria completamente dentro da estatística e ainda assim seria extremamente raro, né?)! 

Sim, a fórmula (tal qual a cesariana) é uma intervenção benéfica que salva vidas de bebês quando necessária, mas tem sido prescrita com uma frequência muitíssimo maior do que deveria!! Quantas situações não poderiam ter sido revertidas com uma correção de pega, com frenotomia precoce (corte do frênulo lingual se este for preso), com ausência de bicos artificiais (evitando a confusão de bicos), com livre demanda DE VERDADE (dar o peito sempre que a criança quiser e por quanto tempo ela quiser, incluindo a sucção não nutritiva – vulgo “chupetar o peito” – e a amamentação noturna que é importantíssima p/ a produção adequada de leite) e etc? O quanto somos levadas a acreditar que nosso leite não é suficiente porque o bebê está chorando por milhares de outros motivos, incluindo a necessidade de colo e apego (que o peito também proporciona)? E a crueldade das curvas que desconsideram todo o estado geral da criança e levam a inúmeras intervenções e preocupações desnecessárias?

Se eu tivesse um pouco menos informação do que eu tenho, talvez tivesse caído no ciclo vicioso da falta da auto confiança – profissionais desatualizados – condutas erradas – desmame! Mas, graças à boa informação, seguimos felizes na amamentação exclusiva em livre demanda! 

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