Como me tornei doula e o que aprendi com as mulheres em 10 anos

Trabalho com gestantes desde 2008. Comecei atendendo algumas grávidas que buscavam na acupuntura um recurso natural e isento de efeitos colaterais para aliviar os desconfortos típicos da gestação. Com o vínculo criado ao longo das sessões, algumas delas me convidavam para estar presente também no dia do parto.

O meu papel era ajudá-las em eventuais necessidades que surgissem durante o trabalho de parto (tais como enjôo, parada de progressão, corrigir a posição do bebê, analgesia, etc). Nesse período, dois sentimentos vieram à tona. O primeiro foi um encantamento com essa fase tão diferenciada da vida de uma mulher. O segundo, um incômodo ao perceber a lacuna existente entre a vontade daquelas mulheres e o desfecho final de seus partos, assim com a falta de informação generalizada entre elas, a sociedade e até mesmo entre os profissionais de saúde. Me surpreendi ao perceber que embora boa parte do público que eu convivia fossem mulheres com um excelente nível de escolaridade e um largo acesso à informação, ainda assim alguma coisa acontecia no meio do percurso que as impedia de vivenciar o parto e a maternagem da maneira idealizada.

Foi então que eu mergulhei de cabeça nesse universo da gestação, do parto e da maternidade. Percebi que gostaria de fazer mais por essas mulheres e fiz uma dezena de cursos de especializações nas áreas de psicologia (minha formação original), acupuntura (aplicada a ginecologia, obstetrícia e pediatria) e educação perinatal. Sentia que, mais do que uma escolha, orientar e acompanhar essas gestantes era uma missão, mesmo que eu nunca tivesse passado por essa experiência pessoalmente. Passei a acompanhar essas mulheres como doula e produzi um documentário sobre o tema, de forma a disseminar em larga escala tudo aquilo que eu estava aprendendo: “O Renascimento do Parto”. O filme foi um divisor de águas na obstetrícia brasileira e finalmente pude ver a informação chegando e fazendo a diferença na experiência vivenciada por milhares de famílias.

Após 10 anos trabalhando e convivendo de perto com o dia a dia de gestantes, parturientes e puérperas, gostaria de compartilhar alguns dos inúmeros aprendizados que obtive nesse período:

– As mulheres são muito, muito mais fortes do que pensam. E mesmo quando pensam terem atingido o seu limite, frequentemente ainda conseguem ir mais um pouco.

– Os hormônios envolvidos na gestação, no parto e no pós parto são uma força cuja potência e importância ainda não chegaram nem de longe a serem desvendadas pela ciência.

– Embora a tecnologia seja vista na sociedade atual como sinônimo de status e segurança, quanto menos interferirmos na natureza e nos processos fisiológicos, melhor (salvo em situações específicas, é claro).

– A gravidez não é doença, mas é sim um momento com necessidades únicas que devem ser respeitadas e compreendidas por todos.

– A vinculação entre mãe e bebê começa muito antes do que possamos imaginar, e tudo aquilo que acontece ainda no ambiente intrauterino também é muito importante na formação desse novo ser.

– O acesso à informações de qualidade e receber apoio emocional são tão importantes para a gestante quanto um pré natal bem feito.

– Boa parte das mulheres pensa estar escolhendo a respeito da via da parto, mas não percebe que suas supostas escolhas não estão sendo verdadeiramente informadas.

– O nascimento virou uma indústria e é preciso lutar muito para que esse momento não seja apenas mais um na linha de produção em série de partos.

– No Brasil, para parir com respeito é preciso se informar muito e entender múltiplos aspectos da fisiologia do parto, do sistema de saúde, dos profissionais envolvidos, etc.

– Para humanizar o parto e o nascimento é preciso muito mais boa vontade da parte da equipe profissional do que qualquer tipo de estrutura física.

– Quando a mulher tem a oportunidade de assumir o protagonismo do seu parto, esse momento pode ser o mais incrível e empoderador de sua vida.

– Por mais dor que exista durantes as contrações de um parto normal, esse é um detalhe muito pequeno na memória de quem vivenciou esse momento de forma respeitosa. Quase todas as gestantes que eu acompanho morrem de saudade desse dia e afirmam que gostariam de reviver essa experiência.

– Nem todas as mulheres desejam ou estão preparadas para serem mães, e tudo bem! Não deveria ser um demérito ou motivo de vergonha e constrangimento para nenhuma mulher assumir isso.

– A maternidade margarina não existe, e é preciso falar sobre isso. O pós parto é um momento delicadíssimo em que os hormônios despencam, dá vontade de chorar, dá um desespero por ser completamente responsável por uma nova vida, dá um medo de nunca mais ter sua liberdade de volta, dá uma insegurança de estar fazendo tudo errado. E essa sensação é comum a praticamente todas as mães, embora nas redes sociais elas frequentemente pareçam apenas felizes e plenas.

– A amamentação nem sempre é espontânea, instintiva e automática. Muitas vezes é preciso corrigir a pega, cuidar de um bico ferido em carne viva, se consultar com especialistas inúmeras vezes seguidas, aprender a fazer ordenha. E pode exigir muita força de vontade e dedicação, uma vez que a indústria e o senso comum te dizem o tempo todo que o seu leite é pouco, é fraco, e que o bebê deveria tomar fórmulas artificiais.

– A importância da amamentação vai muito além da nutrição física do bebê e dos anticorpos passados pela mãe. Esses momentos entre mãe e filho são capazes de nutrir a alma, inclusive quando a criança já se alimenta de comida sólida.

– A culpa é um sentimento comum à todas as mulheres, presente em quase todas as decisões que as mães precisam tomar, não importa qual seja.

– É preciso falar sobre as questões de gênero e isso deveria começar desde o enxoval, quando se estabelece que rosa é para meninas e azul para meninos. A cultura do machismo frequentemente nasce antes mesmo da criança.

– Boa parte do enxoval é composto de itens criados por nossa cultura de consumo que são frequentemente inúteis, incômodos ou até mesmo prejudiciais para o bebê.

– Bebês não são seres manipuladores (sequer possuem maturidade neurológica para isso) e todo choro deve ser atendido com amor e compreensão, pois essa é a única forma de comunicação que eles possuem nos primeiros meses de vida.

– A necessidade de afeto e aconchego é tão legítima quanto a fome, o sono ou a fralda suja, e o excesso de colo e amor jamais deixará o bebê “mal acostumado”.

– Existem diferentes formas de educar, mas os conceitos de disciplina positiva e criação com apego são absolutamente encantadores e coerentes para a formação de um ser humano saudável e feliz.

– Não existe nenhuma fórmula ou manual de instruções que possa ser aplicado à todos os bebês. Cada família tem necessidades únicas.

E por fim… a intuição da mãe frequentemente está mais correta do que a opinião dos especialistas!

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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