Doulas e COVID-19

Primeiro, deixa eu me apresentar. Me chamo Érica, sou doula e o primeiro parto que acompanhei foi em 2008, ou seja, há 12 anos, quando a profissão DOULA ainda estava começando a ser entendida e difundida no Brasil. Éramos pouquíssimas. 

Foi graças ao trabalho e à luta de muitas (os) ativistas maravilhosas (os) pela Humanização do Parto e Nascimento que gerou-se a demanda necessária para a criação de dezenas de cursos de doula no país, a conscientização por parte das gestantes da importância do nosso trabalho, uma legislação específica para amparar o direito das mulheres de terem nosso acompanhamento e o apreço dos outros profissionais da saúde pelos resultados benéficos da nossa presença no cenário do parto. Nesse contexto, ressalto aqui a contribuição do documentário que eu produzi, “O Renascimento do Parto”, para a propagação dos benefícios do acompanhamento da doula e a ampliação dessa discussão em nível nacional. Não há o que questionar a respeito da nossa importância e da diferença que fazemos para as mulheres, inclusive respaldada pela ciência. 

Tenho acompanhado todas as discussões sobre a presença ou não da doula no cenário do parto nesse contexto de pandemia em que vivemos. No Brasil, muitos hospitais e maternidades estão impedindo a nossa entrada e limitando a parturiente para que esteja amparada por apenas uma pessoa além da equipe obstétrica essencial, retirando até mesmo o pediatra da sala de partos de baixo risco. As visitas já foram proibidas. Em diversos países, até mesmo a entrada do acompanhante foi restringida também, a despeito da legislação vigente (sinceramente eu estou torcendo muito para que a gente não precise chegar nesse nível, mas sabendo que existe essa cruel possibilidade caso a situação se agrave demais e seja imperativo reduzir ao extremo a quantidade de pessoas circulantes no hospital).

Estamos em um cenário completamente atípico, em que milhares de doentes estão morrendo sem ter o direito de se despedirem uma última vez de seus familiares. Portanto, entendam que esse é um cenário de guerra, onde a prioridade absoluta é proteger todos: profissionais de saúde, gestantes, bebês, nós mesmas e nossas famílias. O vírus é um inimigo invisível, porém real, sendo justamente as pessoas assintomáticas as responsáveis pela maior parte dos casos de contágio. Os hospitais já se encontram sem a quantidade necessária de equipamentos de proteção individual (EPI) para os médicos e para os outros profissionais essenciais na assistência que estão se expondo diariamente por nós (população), o que infelizmente tem causado a morte de milhares deles em todo o mundo. Estamos PERDENDO diariamente profissionais da linha de frente!!! Eles estão morrendo por falta de equipamento de proteção e desfalcando ainda mais um sistema de saúde já deficitário!! Vocês têm idéia da gravidade disso?

Por isso, nenhum profissional que não seja ABSOLUTAMENTE essencial naquele momento pode se dar ao luxo de gastar esses insumos, transitar em vários hospitais e correr o risco de se contaminar ou contaminar outras pessoas caso sejam portadores assintomáticos. Cabe lembrar que as gestantes e puérperas, até então uma população esquecida nas estatísticas, começaram a sofrer as consequências da forma grave da doença, que ainda é tão desconhecida pela ciência, e frequentar os relatórios dos grupos de risco e dos obituários. Bebês também estão sendo infectados e desenvolvendo a forma grave da doença. Esse é um momento para focarmos naquilo que é mais importante: PROTEÇÃO coletiva e individual!!! SOBREVIVÊNCIA!!!

Claro que nem por isso devemos fechar os olhos para a ampliação da violência obstétrica que pode ser um efeito colateral maléfico das circunstâncias, como o aumento das intervenções desnecessárias ou cesarianas, mesmo porque os partos normais e fisiológicos são ainda mais importantes nesse momento, visando menos riscos associados, menos profissionais envolvidos e alta precoce. Futuramente, em outro contexto, voltaremos a lutar por todos os direitos pelos quais eu particularmente luto há mais de 10 anos, incluindo a presença inestimável da doula no cenário do parto!

Em todos esses anos atendendo centenas de gestantes, aprendi uma coisa: embora a doula tenha como uma de suas principais funções a presença acolhedora no momento do parto e o fornecimento de métodos não farmacológicos de alívio da dor, é como Educadora Perinatal ao longo do pré natal e do pós parto que seu trabalho se faz ainda mais necessário. As informações de qualidade fornecidas à gestante e o planejamento conjunto de um plano de parto eficiente fazem verdadeiramente a diferença, assim como o acompanhamento, mesmo que remoto, durante a fase inicial do trabalho de parto com recomendações importantes, evitando preocupações desnecessárias e internações precoces (que levam frequentemente a uma cascata de intervenções e à maior parte dos casos de cesarianas).

Vamos focar naquilo que ainda podemos fazer, o que na verdade é MUITO! As mulheres precisam de nós, de preferência VIVAS e SAUDÁVEIS, para em breve reconstruirmos tudo que está sendo perdido nesse cenário triste que vivemos mundialmente. Estaremos juntas! 

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