Feminismo, Empoderamento e Parto Humanizado

Em tempos de discussões tão acaloradas sobre os direitos das mulheres nas redes sociais, três conceitos tão difundidos quanto mal interpretados vem ganhando destaque: feminismo, empoderamento e parto humanizado! Mas o que querem dizer esse termos e qual a relação entre eles?

– Feminismo: ao contrário do que muitos pensam,  feminismo não é o oposto de “machismo” (ou seja, nada tem a ver com a dominação do gênero feminino sobre o masculino), e sim um movimento que luta por direitos iguais. O feminismo moderno é extremamente plural e diversificado, e embora nem todas as feministas se identifiquem com algumas correntes do movimento, ele possui como fundamentos básicos a luta contra o sistema patriarcal que privilegia os homens e a promoção da equidade de gênero. Se você acha que a mulher tem o direito de receber o mesmo valor do que o homem para fazer o mesmo tipo de trabalho, que não pode sofrer violência física ou psicólogica e deve ter autonomia sobre seu corpo (inclusive no que diz respeito aos direitos sexuais e reprodutivos), então você é feminista. Independente de maquiar-se ou não, de depilar-se ou não, de querer ou não ter filhos, de ser ou não ser “feminina”. Pois o feminismo diz respeito a liberdade.

– Empoderamento: é um conceito que traz consigo a idéia de autonomia e emancipação, de forma que o indivíduo empoderado conheça todas as possibilidades e suas implicações, seja plenamente responsável por suas escolhas e esteja consciente  de suas consequências, vivendo de acordo com seus valores.  Portanto, quando nos referimos a uma mulher como “empoderada”, queremos dizer que ela retomou o poder sobre seu corpo e suas escolhas (que muitas vezes estava nas mãos do estado, do profissional de saúde, de figuras de autoridade, da família, etc).

– Parto Humanizado: é sinônimo de um parto em que os desejos da parturiente são respeitados, uma vez que ela esteja devidamente esclarecida a respeito de suas opções. O parto humanizado não é necessariamente sinônimo de parto natural, mas garante que a mulher e o bebê só sofrerão intervenções se estas forem realmente necessárias e/ou após o seu consentimento.  Ou seja, ele tira o protagonismo do profissional da saúde e o transfere para o binômio mãe/ bebê, com o respaldo da medicina baseada em evidências científicas, garantindo assim sua segurança. Humanizar o parto também significa considerar esse evento não apenas um evento fisiológico, mas abarcando todos os outros aspectos que dizem respeito a esse momento.

Dito isso, como feminista e ativista pela humanização do parto e nascimento, eu não luto para que você escolha o parto normal. Eu luto para que você tenha acesso a todas as informações necessárias e se empodere para tomar uma decisão consciente a respeito de como você prefere trazer seu filho ao mundo. Para que você desmitifique o assunto. Para que você saiba as vantagens e desvantagens de cada opção. Para que você questione (seus próprios medos, o sistema, o seu médico – se for preciso). Para que você saiba que sim, você é capaz e, sim, parir pode ser muito bom! Para que você seja a verdadeira protagonista desse momento. Para que o parto possa ser considerado um evento bio-psico-social-espiritual, e não apenas um evento médico. Para que você, desejando um parto normal, receba uma assistência digna e seja assistida por bons profissionais (inclusive se a cesariana for necessária e bem indicada, situação que ocorre em até 20% dos casos). Para que você, tendo um parto normal, não sofra intervenções desnecessárias e não seja violentada como são 1/4 das brasileiras que se percebem vítimas de violência obstétrica (número muito maior quando consideramos a violência oculta, já tão institucionalizada que sequer é percebida). Para que você conheça uma terceira opção que vai muito além de um parto traumático versus uma cesariana eletiva. E que essa terceira opção (no caso, o parto humanizado) faça todo o sentido para você. Ou não.

E se você, tendo acesso às melhores informações disponíveis, ainda assim optar conscientemente por uma cesárea, terá todo o meu absoluto respeito. Da mesma maneira que não devemos estereotipar a mulher que opta pelo parto humanizado (como sendo hippie, índia e etc), não devemos estereotipar quem de fato escolhe uma cesariana (como sendo uma “mãezinha enganada pelo obstetra” ou uma “patricinha que quer agendar para dar tempo de fazer unha/escova/depilação” ou qualquer outro motivo fútil e irrelevante).

O verdadeiro empoderamento consiste em se informar, fazer uma escolha e então bancar essa escolha, com todas as consequências que isso traz! Acima de tudo, a luta é pela autonomia. Mesmo que a sua escolha não seja compatível com a minha.

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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