Gestação e Parto: um sagrado ato médico

Em tempos remotos,  o universo do nascimento confundia-se com o universo do feminino, a gestação era vista como um grande milagre e o parto como um evento absolutamente íntimo e familiar. Mais do que isso, esse momento era encarado como o maior ritual de passagem e iniciação que uma mulher poderia vivenciar em toda a sua vida.  No entanto, o desenvolvimento da tecnologia e da ciência permitiu finalmente a entrada do masculino em um evento essencialmente feminino, ocupando o lugar outrora ocupado pela intuição e experiência. Assim, a mulher deixou de ser a protagonista de seus próprios processos fisiológicos, seu corpo passou a ser visto como uma máquina a ser consertada e a gestação passou a ser encarada como um ato médico, ou seja, como uma doença em potencial.

Desde então, a gravidez passou a ser uma ocasião para freqüentar o hospital ou a clinica, lugares onde geralmente se reúnem os doentes, e para ler ou consultar guias onde estão condensados todos os riscos inerentes ao estado de uma mulher grávida, do feto e do recém nascido. Ao final, a gravidez termina geralmente dentro de uma sala de cirurgia.

Desta forma, não é de se surpreender que as visitas de pré-natal tenham muitas vezes o que pode ser chamado de “Efeito Nocebo”, que é um efeito negativo sobre o estado emocional das gestantes e de suas famílias. Muitas mulheres têm em torno de 10 consultas pré natais; ou seja, dez oportunidades de escutar sobre potenciais problemas. E o que deveria ser um momento para estarem em estado de graça, torna-se um momento de extrema tensão e preocupação para toda a família. Todas tem que ter pelo menos um motivo para estarem preocupadas: “seu bebê é pequeno ou grande demais”, “o colo está um pouco mole ou um pouco duro”, “você ganhou peso de mais ou peso de menos”, “o liquido está  em excesso ou deficiente”.  Ainda é possível ser uma mulher normal?!

O que ocorre é que, atualmente, a formação obstétrica é voltada basicamente para atender gestações de alto risco. Formam-se cirurgiões, e não parteiros, uma vez que gasta-se todo o tempo preparando-se para todas as coisas que poderiam dar errado na gravidez, e pouquíssimo tempo é dedicado para estudar a fisiologia normal da gestação e do parto. Assim, um evento familiar, privado, fisiológico e porque não dizer sagrado, transforma-se em um evento médico e cirúrgico, absolutamente despersonalizado, como se o corpo fosse uma fábrica e o bebê um produto manufaturado. Não há lugar para um tratamento centrado na pessoa e pouco importam as particularidades, características e a subjetividade desta mulher.

Obviamente, o objetivo não é criticar a ciência e a tecnologia, que são muito bem vindas e salvam milhares de vidas todos os dias. Mas o uso indiscriminado de tecnologia e intervenções desnecessárias não apenas não diminuem os fatores de risco como freqüentemente introduzem, na verdade, novos riscos. A ênfase em casos de alto risco não resolve de maneira nenhuma a situação para a vasta maioria das mulheres que possuem gestações e partos de baixo risco.

E o resultado do tecnicismo nós vemos todos dias: a epidemia de cesarianas, mortalidade materna alta, morbidade perinatal alta, incidência aumentada de prematuridade iatrogênica, insatisfação das usuárias e custos estratosféricos. Não é à toa que o país campeão de cesarianas desnecessárias (tecnologia mal utilizada) possui altos índices de mortalidade perinatal, enquanto nos países onde a fisiologia normal da gestação e do parto são respeitados encontramos alguns dos melhores índices de todo o mundo.

Infelizmente, continuamos acreditando que a tecnologia desmedida pode proporcionar segurança, quando ocorre exatamente o contrário. A tecnologia aplicada à gestação e ao parto apresenta resultados positivos até determinado ponto. A partir dai, o acréscimo de tecnologia faz apenas crescerem estratosfericamente os custos e aumentar a morbi-mortalidade materna e neonatal.

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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