Honorários dos profissionais humanizados

honorários (ou supostos honorários, afinal existe muita mentira também) cobrados pelos profissionais humanizados – seja a doula, enfermeira obstetra/obstetriz ou médico obstetra/pediatra. Na verdade, o que eu realmente acho curioso é que essa crítica seja direcionada ao profissional em questão (que está realizando o seu trabalho da melhor maneira possível e tem direito de cobrar o quanto acha justo por ele), e não ao sistema que fez com que infelizmente esse serviço não pudesse ser oferecido à todos, irrestritamente.

Obviamente, todos defendemos e lutamos diariamente para que um atendimento digno e respeitoso seja direito de todas as grávidas, bebês e famílias, mas nem por isso podemos deixar de valorizar o trabalho de quem investiu pesado em uma formação e um atendimento diferenciado, e de quem dedica uma vida inteira à uma missão que está longe de ser apenas romântica!

Não vou entrar na discussão antiga de que boa parte de quem reclama do preço também faz o enxoval em Miami e paga mais do que o valor do parto no aniversário de 1 ano do bebê, etc. Isso de fato acontece, muitas vezes é realmente uma questão de prioridades, mas ainda assim existem famílias que não podem arcar com nem uma coisa nem outra.

Ter um parto bacana com equipe particular pode sim sair caro (embora seja importante refletir sobre a enorme diferença entre o “preço” e o “valor” de algo) e é certo que mais de 90% da população não vai conseguir pagar o valor médio cobrado principalmente nas grandes capitais, onde o custo de vida também é mais alto. Mas sejamos justos com esses profissionais.

Os profissionais humanizados que possuem seus consultórios particulares e atendem não mais do que meia dúzia de partos por mês (afinal, existe um limite do que é humanamente possível atender) são em geral os mesmos ativistas que estão nas ruas, nas marchas, nos congressos, nas reuniões com o governo, nas redes sociais, na mídia, e nas dezenas de encontros e palestras gratuitas disseminando diariamente informações de qualidade e lutando por uma melhora na assistência obstétrica do país. Que muitas vezes atendem também no SUS e/ou estão nas faculdades ensinando boas práticas para alunos e futuros colegas de profissão. Que precisam matar um leão por dia para lidar com os hospitais, os conselhos, os colegas conservadores e toda essa “indústria” tecnicista que tomou conta do nascimento. Que são julgados com lentes de aumento e muitas vezes são injustiçados simplesmente por praticarem um atendimento não convencional (ou não compatível com a linha de produção atual).

E são esses mesmos profissionais que sacrificam completamente sua vida pessoal, suas noites tranquilas de sono, seu lazer (incluindo a possibilidade de tomar simples decisões de última hora, como passar um final de semana fora, ou até mesmo tomar uma cerveja com amigos), seus momentos em família, etc. Que incontáveis vezes abdicam de seus próprios aniversários e feriados importantes como natal, ano novo e até mesmo aniversários, formaturas e casamentos de pessoas queridas. Que se expõem diariamente ao perigo dirigindo de madrugada e estacionando em lugares perigosos e desertos para atender um parto domiciliar, por exemplo. Que frequentemente precisam desmarcar um dia inteiro de consultório, trocar um plantão de última hora ou fazer mil arranjos profissionais e familiares para atender um parto. Que não conseguem seguir uma rotina decente de alimentação, sono e atividade física, comprometendo assim sua própria saúde. Ou seja, que fica disponível durante toda a gestação, 7 dias por semana, 24 horas por dia, cobrando um valor que supostamente paga apenas o trabalho de parto.

Sim, nós adoramos trabalhar com isso, somos viciados em ocitocina, temos um amor profundo por nosso trabalho e acreditamos realmente na causa. Mas não vamos esquecer que por trás de uma missão/vocação/paixão, somos profissionais, essa é uma profissão como qualquer outra e, como todo mundo, temos muitas contas para pagar!

A situação obstétrica do país precisa passar por mudanças profundas e radicais, em diversos setores. Precisamos mudar a legislação, a estrutura hospitalar, a lógica do plano de saúde, o SUS, a formação profissional, a mentalidade coletiva. Mas não é reduzindo os honorários de alguns poucos gatos pingados que se atrevem a atender em um outro paradigma que vamos promover mudanças significativas, principalmente porque esse profissional não vai conseguir assistir mais do que alguns poucos partos por mês. Ainda que fosse possível reduzir esse valor para 1/3, boa parte da população brasileira continuaria não conseguindo arcar com esse custo (e muito menos os profissionais conseguiriam lidar com o tamanho da demanda, visto que hoje já não conseguem). A grande maioria da população sequer tem um plano de saúde e ainda depende do SUS.

Parafraseando a Ana Paula Caldas (pediatra humanizada) em outra discussão parecida, “culpar os poucos profissionais humanizados que ainda resistem ao modelo padrão pela impossibilidade de acesso da maioria da população à essa realidade é como culpabilizar os donos de restaurantes chiques porque tem gente passando fome no país. Batalhar para reduzir o prato do Fasano de 100 reais para 50 reais não vai levar os pobres a frequentarem o Fasano, pois se todo mundo tiver suas 4 refeições diárias garantidas, só irá no Fasano quem tiver vontade, fetiche ou dinheiro para isso”. Ou seja, o buraco é MUITO mais em baixo!!!

É claro que tudo isso não impede que os profissionais negociem, conversem e facilitem a vida de quem tem dificuldade de pagar pelo serviço. Diariamente vejo equipes realizando atendimentos gratuitos, fazendo permutas das mais diversas, negociando ou dividindo em verdadeiros “carnês das Casas Bahia”. E mulheres correndo atrás, fazendo rifas, vaquinhas e até brigadeiros para pagar uma boa equipe. As soluções são as mais variadas!

Mas e você, que esta aí reclamando, está fazendo o que pra mudar a situação?

Foto: Kalu Brum

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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