Meu relato de parto

Pedro nasceu no dia 08/05/19, com exatas 41 semanas de gestação…não sentia absolutamente nenhum sinal antes e também não tinha pressa, minha equipe esperava até 42 semanas e ele poderia vir no dia que escolhesse! O mais irritante era apenas lidar com a ansiedade das pessoas ao redor (achei que como doula eu escaparia dessa, mas não)! Com 40 semanas eu passei por um stress muito muito intenso na minha vida pessoal e sem dúvida alguma isso esvaziou completamente meu “tanque de ocitocina”! Por alguns dias só existia adrenalina circulando no meu corpo (ocitocina e adrenalina são antagonistas, lembram? Com a adrenalina presente não há espaço para os receptores de ocitocina)! Embora eu tentasse meditar e visualizar diariamente um parto suave e tranquilo, dadas as circunstâncias, no fundo eu sabia o que estava por vir. 
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Com 40 semanas e 4 dias, na noite do dia 05 e após encontrar algumas amigas em um café, comecei a sentir algumas contrações com dor leve (sempre tive contrações de treinamento, porém sem dor)! No dia seguinte, as cólicas continuaram, porém bastante espaçadas: eram os pródromos! Por volta de 22h do dia 06 elas começaram a vir mais fortes e ritmadas! Comecei a marcar! Tomei um busc**** e um banho quente e demorado para ver se passavam, mas por toda a madrugada eu tive contrações bastante doloridas, cujos intervalos variavam de 3 a 6 minutos no máximo, e duração de pelo menos 45 a 75 segundos! Não dormi nem um segundo, tanto pela dor quanto pelo intervalo curto entre elas! Também não comuniquei absolutamente para ninguém! Queria esperar para ver se era “valendo” mesmo! 

Pelo padrão de contrações que eu estava tendo (doloridas, longas e frequentes, e que duraram a noite toda), se eu fosse uma gestante “leiga”, certamente teria chamado toda a equipe para minha casa, sobretudo nos momentos em que elas vinham de 3 em 3 minutos! Mas eu conhecia meu corpo como ninguém! Desde antes de engravidar eu já tinha familiaridade com meu colo do útero, pois fazia parte do método de controle de fertilidade (que já expliquei pra vcs como funciona e está nos destaques dos meus stories)! Durante a gestação também acompanhei suas alterações ao longo dos meses, sentindo sua textura na hora de tomar banho! Então, após aquela noite toda de contrações, eu sabia que meu colo ainda estava praticamente fechado e não era a hora! Chamei minha obstetra para me avaliar no final da manhã do dia 07, só para confirmar o que eu já sabia: colo apagado, bebê estava baixo (plano 0), mas apenas 1,5 cm de dilatação! Me conformei que pelo menos aquela madrugada e manhã toda de contrações fortes tinha servido de alguma coisa: preparou meu colo e encaixou o bebê! Minha obstetra foi para o consultório e atendeu durante o período da tarde, enquanto as contrações continuaram! Fiquei ouvindo minha trilha sonora escolhida para esse momento e sentia muita necessidade de movimentar o meu corpo! Era puramente instintivo! 

Nesse dia eu precisei usar toda a minha criatividade para escapar algumas vezes da minha mãe, que mandava mensagens frequentes me chamando para fazer alguma coisa ou querendo vir aqui em casa (mãe parece que tem um sensor né? Mas eu sabia que ela ficaria nervosa nessa situação e já havíamos combinado que eu só avisaria depois que nascesse! Foi a melhor coisa que eu fiz! Imagina a bichinha esperando notícias por tanto tempo)!

Quando foi por volta de 17h eu chamei a Carol (minha doula), pois as dores já estavam bem mais intensas! As contrações variavam de 3 a 6 minutos de intervalo e duravam de 45 segundos a 1 minuto e pouco! A obstetra voltou para minha casa por volta de 19h (ou seja, 7 horas após a primeira avaliação) e eu estava com 4 para 5 cm de dilatação…confesso que pelo nível da dor que eu estava sentindo e o tempo percorrido eu esperava estar pelo menos na fase de transição (entre 7 e 10 cm)! Passou mais um tempo e a Débora (fotógrafa) chegou e começou a registrar alguns momentos! 

Minha dor estava aumentando progressivamente! Então comecei a usar a banheira inflável para me ajudar! Era bom, principalmente nos intervalos (sem a água eu sentia uma cólica no pé da barriga e muita dor nas costas ininterruptamente, sendo a contração apenas o ápice dessa dor! Na água eu conseguia diferenciar melhor a contração e descansar um pouco mais nos intervalos)! As massagens da Carol e principalmente o chuveiro também me ajudaram muito a lidar com a dor por tanto tempo! Aliás, o chuveiro foi meu melhor amigo durante essas longas horas! Lá era o único lugar que eu conseguia me conectar verdadeiramente com o que estava acontecendo e não queria que ninguém entrasse, era apenas eu, meus pensamentos e minhas orações! 
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Devia ser por volta de 22:30 quando eu mesma quis tocar novamente meu colo no chuveiro, e mesmo sem saber objetivamente com quantos cm eu estava, percebi que ainda tinha muito para dilatar (doula não faz toque e nem tem esse conhecimento, mas eu como mulher sempre quis conhecer meu corpo e que outra oportunidade melhor eu teria pra isso?)! Fiquei um pouco frustrada ao ver o quanto faltava pela frente e pedi p/ a Rachel confirmar minha suspeita! De fato, ela falou que desde o exame anterior (19h) ainda não tinha evoluído tanto assim a dilatação, e eu estava com 5 para 6 cm! Me deu a boa notícia de que o bebê já havia descido mais, mas eu realmente torcia para que após quase 4 horas entre uma avaliação e outra e com dores tão intensas eu tivesse dilatado mais do que 1 cm! A equipe jantou aqui em casa e durante todo esse período eu pelo menos consegui me alimentar muito bem (o que foi fundamental para aguentar o batidão)! 
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Fiz exercícios de spinning babies com a Carol e depois um verdadeiro circuito em cada contração, conforme meu corpo e meu instinto pediam para fazer: hora agachava, ficava de 4, em pé, deitada, na banqueta, na bola…! As contrações continuavam cada vez mais intensas, e passadas mais 3 horas do último toque eu precisava de uma boa notícia! Por volta de 1 da manhã pedi p/ obstetra ver novamente, e estava com 7 cm! Lembro de ter pensado que a fase de transição (período mais intenso do parto) ainda estava começando e que não era possível que pudesse doer mais ainda do que já estava doendo! Eu estava progredindo cerca de 1 cm a cada 3 horas e essa evolução lenta com contrações tão fortes estava me exaurindo fisicamente e emocionalmente…era inevitável que eu fizesse as contas de quanto tempo ainda levaria para nascer naquele ritmo, mesmo sabendo que em obstetrícia tudo pode acontecer!! 
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Enquanto todos dormiam um pouco eu fui para o chuveiro mais uma vez…decidi me desligar de horários e fiquei imersa em minhas orações e mentalizações de que eu ia parir meu filho e que tudo ia dar certo! Pedia forças para aguentar mais tantas horas quanto fosse necessário, mas já comecei a pensar em algumas possibilidades que pudessem me ajudar caso tudo continuasse tão arrastado! As 3 da manhã eu havia tomado sozinha uma decisão: se não tivesse evoluído significativamente, eu ia pedir uma transferência para colocar um pouco de ocitocina e assim dar um empurrãozinho naquela evolução tão lenta!! Já tinha presenciado dezenas casos onde uma ocitocina com um pouco de analgesia bem indicados haviam salvado vários partos exaustivos como o meu, e nesse momento era muito mais importante para mim parir meu filho do que manter o plano do parto domiciliar sem nenhuma intervenção (vejam a diferença de intervenções bem indicadas e a favor da paciente, e não da equipe médica)! 

Já haviam se passado 30 horas de contrações intensas e frequentes desde o início de tudo! Então a Rachel me examinou novamente e lá estava eu com os mesmos 7 cm! Ou seja, mais 3 horas haviam se passado e absolutamente nada havia mudado! Foi a certeza que eu precisava para solicitar uma transferência para me ajudar a parir antes que a exaustão me vencesse! 
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Fomos para a sala de parto humanizado da maternidade e rapidamente tive meus pedidos atendidos: um pouco de analgesia para aguentar o que estava por vir e ocitocina para dar ainda mais potência e regularidade às contrações! Me certifiquei de todas as intervenções que eu não gostaria que o bebê passasse e de que ele seria atendido pela pediatria no mesmo local em que eu estava! Montamos um ambiente aconchegante com luz azul, banqueta, bola, barras de apoio, rebozo e minha trilha sonora (eu achava que tinha exagerado numa trilha com 16 horas de duração e acabei ouvindo ela toda 2x)! 
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Mesmo com a ocitocina, a evolução seguiu lenta (precisei de mais 6 horas para ir de 7 cm para a dilatação total), mas com a analgesia eu estava sentindo menos dor, então tudo bem! A madrugada passou, eu nem acreditava que já havia amanhecido de novo e nada do Pedro nascer! Eu já estava com dilatação total há um bom tempo, mas não sentia puxos! Eu colocava o dedo lá dentro e sentia a cabecinha dele bem baixa!! Umas 11h (ou seja, 7 horas depois de termos chegado ao hospital) minha doula entrou na sala e falou que a obstetra estava pensando em chamar um colega para auxilia-lá! Nesse momento, eu arrepiei! Se ela pensava em chamá-lo era pq poderia indicar uma cesariana, e eu não tinha passado tudo aquilo para terminar numa cesárea de jeito nenhum, a não ser que não estivesse tudo bem comigo ou o bebê (na verdade eu descobri bem depois que eu havia entendido errado, e que ela só queria uma segunda opinião sobre o que mais poderia ser feito naquele momento)! 

Então a cada contração eu comecei a fazer força, o efeito da analgesia já havia passado e eu estava sentindo toda a dor novamente, o que me deixou mais motivada a empurrar e acabar de vez com aquilo! Continuei fazendo força enquanto sentia a cabecinha dele com o meu dedo na entrada da vagina, então eu sabia exatamente o momento da contração e que tipo de força estava sendo eficaz para ele descer! Eu também sabia que ele estava bem pela ausculta do coraçãozinho e naquele momento eu decidi que ia parir de qualquer jeito! 

Olhei para a Carol e mostrei: falta só isso aqui (uma falange) p/ ele nascer, pode chamar todo mundo! Poucas contrações e MUITA força depois, ele coroou! Não sei mais quantas contrações precisaram para ele sair, mas sei que eu estava tão determinada a parir que ele saiu inteiro (cabeça e corpo juntos) – não teve aquela história de “só respira depois que a cabecinha sair para ele vir suave”! 
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Então ele veio direto pro meu colo (tinha uma circular de cordão) e eu nem acreditava que finalmente havíamos vencido aquela árdua jornada juntos!!! Esperamos o cordão parar de pulsar para clampear e ele foi avaliado no mesmo ambiente em que eu estava! Ele nasceu às 11h41 do dia 08, pesou 3,2 kg (a previsão da ecografia para aquela semana seria por volta de 3,7 kg, para verem como o US não é balança) e eu me lembro de pensar que ainda bem que ele nasceu de 41 semanas, do contrário seria muito magrinho! E nasceu bem comprido: 52 cm (no US dava 50 cm)! Pedrinho não foi aspirado, esfregado e nem aplicaram o colírio nos olhos a meu pedido! Veio para meu colo logo em seguida e iniciamos a amamentação na primeira hora de vida! 

Resumindo, eu tive 36 horas de contrações bastante doloridas e com intervalos curtos (o TP inteiro teve o mesmo padrão: variou de 3 a 6 minutos de intervalo) e 17 horas apenas de fase ativa (ou seja, a partir de 5 cm de dilatação)! Como eu sempre insisto em dizer: parto humanizado não é sinônimo de parto domiciliar, ou parto natural e sem intervenções! O parto humanizado é aquele em que a mulher é respeitada como protagonista desse momento, e que as intervenções – se forem realizadas – possuem uma indicação clara e precisa! Que foi meu caso! 

Acredito muito que no parto não parimos apenas o nosso bebê! Para além de diferenças individuais de limiar da dor, genética, anatomia, e etc, em um momento tão intenso quanto o parto nós nos deparamos e parimos muitas outras coisas também, inclusive algumas outras dores! E sei muito bem o quanto isso aconteceu comigo! A semana anterior ao parto foi uma das semanas mais difíceis e estressantes da minha vida, e isso reverberou diretamente na minha experiência! Não tive tempo hábil para parir minhas outras dores antes do trabalho de parto iniciar, e por isso ele chegou trazendo junto com as contrações um tsunami de emoções misturadas que sem dúvida alguma acrescentaram umas boas horas de trabalho de parto no meu processo! Afinal, o parto é feito de um coquetel de hormônios finamente orquestrados e qualquer interferência externa pode ser capaz de atrapalhar e muito o desfecho! 

O parto para mim foi uma experiência muito forte e extremamente marcante, em que conheci e ultrapassei todos os meus limites! É como aquela velha analogia de escalar o Everest: vc pode pegar um atalho e chegar lá em cima de helicóptero, mas a vista não terá o mesmo impacto do que se vc escalar a montanha por seu próprio mérito! O parto foi meu Everest! Eu já conhecia o caminho, estudei sobre ele minha vida inteira, fui guia da escalada de centenas de mulheres, apontando cada curva que elas encontrariam pela frente! Mas quando vc está ali, vivendo a situação, é só você e você! Apenas a sua verdade importa! E de tudo, fica a maior lição de todas: depois que testamos e conhecemos a nossa própria força, todas as outras situações da vida se tornam fichinha para o mulherão que somos 💪🏻

Ps: meus agradecimentos eternos à minha equipe maravilhosa! Dra Rachel Reis (@rachelvinhaes) por toda dedicação, paciência e amizade de tantos anos! Não poderia ser outra pessoa a acompanhar meu parto! ♥️ Carol (@doula.carol.aguiar) como doula foi simplesmente maravilhosa e incansável! ♥️ Debora ( @deboraamor_im) com sua presença amorosa e invisível registrando tudo lindamente! ♥️ Melissa (@melissammartinelli) que acabou não estando presente fisicamente mas acompanhou e torceu à distância! ⠀⠀

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Fotos: Débora Amorim 

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