O parto como ritual de passagem

Já pararam pra pensar que o trabalho de parto não pode ser reduzido apenas a um processo fisiológico?

Acima de todos os indiscutíveis benefícios físicos que o parto normal proporciona p/ mãe e filho, esse momento é um ritual de passagem importantíssimo para a mulher, o bebê e todos os presentes que eventualmente estejam participando (companheiros, avós, etc). Aquele serzinho foi gestado durante dezenas de semanas e, a partir do momento do nascimento, a vida dessas pessoas jamais voltará a ser a mesma. Não é apenas o bebê um recém nascido, mas também são recém nascidos os seus pais, que mudarão para sempre seus papéis e suas responsabilidades perante a sociedade.

Vou dar um exemplo:

Tenho certeza de que uma das principais demandas da maternidade/paternidade é o desenvolvimento de uma qualidade tão difícil quanto fundamental: a paciência! Será preciso paciência 24 horas por dia para cuidar e criar um filho, para entender como lidar com cada etapa, para conciliar tudo isso com as outras atividades, para aturar os palpites alheios, para entender que “tudo passa”, para passar pelos picos de crescimento e o nascimento dos dentes, para compreender as necessidades (nem sempre óbvias) daquele ser que não sabe ainda se expressar se não com o choro. Não é fácil, mas se pararmos pra pensar, o trabalho de parto pode ser um excelente começo para que possamos desenvolver e aperfeiçoar essa característica dentro de nós. Afinal, num mundo onde o normal se tornou marcar na agenda o dia do nascimento em uma extração cirúrgica rápida e mecânica, é preciso ter paciência para esperar “a hora do bebê” e o momento em que ele indicou que estava preparado para nascer (o que pode ocorrer até 42 semanas de gestação).

Também é preciso ter paciência para aguardar a evolução de todo o processo, que pode começar com um longo e cansativo período de pródromos (contrações de treinamento que já incomodam bastante e podem durar até semanas) e de fase latente (contraçoes doloridas e regulares, mas espaçadas, que podem se estender até por alguns dias). Ou até mesmo uma bolsa rota prolongada ou um expulsivo mais demorado, em que não temos controle sobre o processo e precisamos aguardar o corpo fazer sua parte enquanto fazemos a nossa. São muitos os momentos em que o trabalho de parto nos exige e desenvolve a nossa paciência.

Mas ele também desenvolve outras qualidades importantíssimas para a maternidade e para a vida, e entre elas eu gostaria de destacar uma: a entrega! Durante o trabalho de parto, se tem uma coisa que é fatalmente exigida da mulher, é a capacidade de se entregar. De confiar no seu corpo, na natureza, de parar de pensar com o cérebro racional, de ligar o modo instintivo e intuitivo que existe dentro de nós. De aceitar que não temos o controle absoluto, que podemos no máximo fazer boas escolhas, mas que o restante dependerá de algo maior do que nós para acontecer. E que nem sempre aquilo que planejamos é o vai acontecer ou o que precisamos passar.

Um parto rápido, ou demorado, ou cansativo, ou emocionalmente intenso…todos eles possuem sua razão de ser e sua beleza própria! Talvez demore anos para as fichas caírem, e talvez elas nunca caiam. Mas tenham uma certeza: cada mulher tem exatamente a experiência de parto que por algum motivo ela precisa ter (não estou incluindo aqui as experiências traumáticas de violência obstétrica ou má assistência, obviamente).

Isso sem contar a explosão dos famosos hormônios do amor (prostaglandinas, ocitocina, prolactina, etc), que são liberados durante o trabalho de parto e facilitam bastante essa transição entre o “estar grávida” e “tornar-se mãe”.

Quem passou por essa experiência pode confirmar: é impossível ser a mesma pessoa após uma experiência de trabalho de parto. Como bem falou a Gisele Bundchen após parir seu primeiro filho em um parto domiciliar na água: “todo mundo sempre me considerou uma mulher muito poderosa. Mas foi no dia que eu pari meu filho que eu realmente senti esse poder de verdade. Senti que, se eu fui capaz de fazer aquilo, eu poderia ser capaz de fazer qualquer outra coisa”.

Um obstetra que eu gosto muito costuma falar para suas pacientes em todos os partos que já assistimos juntos: “que você possa sempre se lembrar da força e da coragem que você teve hoje em todos os momentos difíceis da sua vida”.

E vocês, de que forma a experiência do parto e da maternidade as transformou de alguma maneira?

Foto: Além D’Olhar

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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