Parto Domiciliar – evidências científicas

Vamos falar sobre Parto Domiciliar?

Ao contrário do imaginário popular, o parto domiciliar não ocorre apenas com um maço de ervas, uma toalha e uma bacia de água quente. Ainda tabu no Brasil (embora comum em diversos outros países, como Inglaterra, Nova Zelandia e Holanda, sendo inclusive incentivado pelos próprios órgãos de saúde e o governo local, vide reportagens abaixo:

http://www.unasus.gov.br/…/orgao-de-saude-britanico-endossa…

http://www.ebc.com.br/…/reino-unido-recomenda-que-gravidas-…

http://g1.globo.com/…/medicos-ingleses-dizem-que-mulheres-p…

http://mulher.uol.com.br/…/estudo-holandes-diz-que-parto-ca…),

o Parto Domiciliar Planejado é considerado tão seguro quanto o Parto Hospitalar, desde que siga 3 premissas básicas:

1) Um pré natal bem feito e uma gestação de risco habitual (baixo risco). Feto único, bebê cefálico, gestação a termo (a partir de 37 semanas), ausência de qualquer patologia associada (como diabetes gestacional, pressão alta, etc) e início espontâneo do trabalho de parto.

2) Uma equipe qualificada, com profissionais bem treinados e com materiais adequados tanto para situações normais do parto (doppler/sonar, luva, compressa, gaze, clamp umbilical, material de sutura, campo estéril, anti-sépticos, vitamina k, balança, estetoscópio, etc) quanto para situações de emergência (medicamentos diversos inclusive para conter hemorragia, ergotrate, seringas e agulhas, soro, cilindo de oxigênio, ambu adulto e neonatal, CFR, aspirador, oximetro, etc). No caso da equipe qualificada, esta pode ser composta por: enfermeiras obstetras, obstetrizes, médicos obstetras, médicos da família e médicos pediatras, podendo ser também (e de preferência) uma equipe multiprofissional. Obviamente, os partos domiciliares que ocorrem com parteiras leigas ou partos desassistidos estão associados a uma maior chance óbitos e complicações.

3) Um bom plano de contingência: definir com antecedência o plano B em caso de necessidade de remoção hospitalar, de forma que tudo ocorra dentro de um espaço/tempo adequado. Durante o trabalho de parto, mãe e bebê são continuamente monitorados pela equipe e a qualquer sinal de uma possível intercorrência esse parto passa a ser hospitalar.

Mas vamos às evidências científicas, com 8 estudos bastante interessantes sobre o tema:

– Estudo inglês analisou a morbimortalidade perinatal em 529.688 partos domiciliares e hospitalares planejados em gestantes de baixo-risco. O estudo conclui que um parto domiciliar planejado não aumenta os riscos de mortalidade perinatal e morbidade perinatal grave entre mulheres de baixo-risco.

http://onlinelibrary.wiley.com/…/j.1471-0528.2009.…/abstract

– Estudo holandês com mais de 679.000 partos analisados evidenciou uma taxa de 0,15% de morte perinatal no parto domiciliar e 0,18% no parto hospitalar, concluindo assim que o parto domiciliar, sob condições adequadas, não é associado com um aumento de morte neonatal.

http://journals.lww.com/…/Planned_Home_Compared_With_Planne…

– Estudo inglês com quase 65.000 partos analisados conclui que mulheres saudáveis com gravidez de baixo risco devem escolher o local de nascimento, sendo que mulheres que dão à luz em domicílio vivenciam menos intervenções, sem impacto nos resultados perinatais.

http://www.bmj.com/content/343/bmj.d7400

– Estudo canadense comparou todos os partos domiciliares planejados com todos os partos hospitalares planejados de mulheres que possuíssem idênticas boas condições de saúde e idêntico baixo risco de gravidez, num período de 5 anos, concluindo que o parto domiciliar planejado esteve associado a taxas muito baixas e comparáveis de morte perinatal, e taxas reduzidas de intervenções obstétricas e outros eventos perinatais adversos, em comparação ao parto hospitalar.

http://www.cmaj.ca/content/181/6-7/377.full

– Estudo inglês com quase 147 mil mulheres de baixo risco conclui que as mulheres que tiveram parto domiciliar planejado tiveram menores taxas de morbidade materna, hemorragia pós parto e remoção manual da placenta do que as mulheres que tiveram parto hospitalar.

http://www.bmj.com/content/346/bmj.f3263

– Estudo americano analisou os partos domiciliares planejados ocorridos nos EUA entre 2004 e 2009, concluindo que houveram altas taxas de nascimentos fisiológicos, baixas taxas de intervenção sem aumento dos resultados adversos em relação aos partos hospitalares:

http://onlinelibrary.wiley.com/…/10.1111/jmwh.12172/abstract

– Estudo norueguês que analisou 1631 partos e concluiu que os partos domiciliares planejados estavam associados a um risco reduzido de intervenções e complicações.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23182447

– Estudo brasileiro realizado em Florianópolis de partos assistidos entre 2005 e 2009 que indicam que o parto domiciliar é seguro.

http://www.scielo.br/scielo.php…

– Nesse estudo de julho de 2018, os pesquisadores buscaram todos os artigos comparando desfechos nesses locais de parto em 5 bases de dados de indexação de artigos científicos, utilizando critérios de inclusão e métodos adequados para revisões sistemáticas. Ao final, 28 artigos atenderam aos critérios de qualidade, oferecendo dados sobre mortalidade perinatal, complicações maternas (morbidade), via de nascimento e admissões em UTI neonatal. Dos 28 estudos (publicados entre 2000 e 2016), 5 foram realizados na Australia; 5, na Holanda; 3, no Reino Unido; 6, em países nórdicos; 2, em outros países da Europa; 4, na Nova Zelândia; 2, nos Estados Unidos; e 1, no Japão. Dezoito deles foram classificados como sendo de alta qualidade segundo o Índice ResQu. Foram analisados os seguintes resultados perinatais (do feto ou recém-nascido), cada um deles para total de mulheres, apenas nulíparas e apenas multíparas: óbito fetal, morte neonatal precoce (entre 0 e 7 dias de vida) e admissão em UTI neonatal. Na comparação entre parto hospitalar e parto domiciliar, não houve diferença estatisticamente significativa para os resultados de óbito fetal ou neonatal precoce – ou seja, não houve chance aumentada no parto domiciliar, nem redução da chance no hospital; os números foram similares. No entanto, a chance de admissão em UTI neonatal foi significativamente menor nos partos planejados em domicílio do que naqueles planejados no hospital. Esta diferença ocorreu para o total de mulheres e para o grupo das multíparas, sem diferença estatisticamente significativa para o grupo sem parto normal anterior. Para ter uma ideia desse risco, no total de mulheres, houve 2 internações em UTI neo a cada 1000 partos planejados em casa versus 8 internações a cada 1000 no hospital.

Para os desfechos maternos, nos partos planejados em casa (quando comparados ao hospital), houve um aumento de 3 vezes na chance de conseguir um parto vaginal normal; uma redução de 65% na chance de terminar em uma cesárea; uma redução de 63% no risco de um parto instrumental (vácuo ou fórceps); um aumento de 15% na chance de um períneo íntegro; uma redução de 43% na chance de uma laceração perineal grave; e uma redução de 23% na chance de hemorragia pós-parto com perda de mais de 1 litro de sangue. Todas essas diferenças em favor do parto domiciliar planejado e não houve nenhum desfecho em favor do parto hospitalar. Convém lembrar que as análises são feitas de acordo com o local planejado para o parto, ainda que tenha havido transferência, por exemplo.

Conclusão dos autores: “Os resultados demonstram que, em estudos rigorosamente selecionados de mulheres de risco habitual em países de alta renda, o local planejado para o parto parece ter pouco impacto significativo em desfechos perinatais adversos. No entanto, mulheres que planejaram parir em casa de parto ou em domicílio tiveram chance significativamente menor de intervenção e morbidade (complicações) graves no trabalho de parto e parto”. Ou seja, parto em casa não leva, segundo as evidências obtidas destes 28 estudos, nos contextos em que foram realizados, a aumento do risco de óbito ou internação em UTI neonatal para o feto/recém-nascido e ainda está associado a redução do risco de cesárea, parto instrumental e complicações maternas.

https://www.midwiferyjournal.com/…/S0266-6138(18)3…/fulltext

–> Cabe lembrar que, embora os conselhos brasileiros regionais de medicina desaconselhem o parto domiciliar, órgãos como a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Federação Internacional de Obstetras (FIGO), o American College of Nurse Midwives, a American Public Health Association, o Royal College of Midwives (RCM) e o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) apoiam a esolha pelo parto domiciliar para mulheres com gestações saudáveis.

Ou seja, o parto domiciliar é uma opção aceitável e segura para gestantes de baixo risco, desde que realizado de maneira adequada. No entanto, assim como no parto hospitalar e na cesariana, a paciente deve estar devidamente orientada quanto aos riscos (que são baixos, mas não são inexistentes) e a possibilidade de desfechos negativos e inesperados, compartilhando com a equipe a responsabilidade sobre essa escolha. Por exemplo: mesmo nos países com a menor taxa de mortalidade do mundo, cerca de 1 a cada 500 bebês não vai sobreviver, independente do local e da via de parto.

E para quem diz que as mulheres que optam por parto domiciliar são leigas e não estão devidamente informadas sobre os riscos, finalizo com uma matéria sobre médicas que optaram por parto em casa:

http://maternar.blogfolha.uol.com.br/…/medicas-tambem-opta…/

Foto: Parto com Arte

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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