Por que o berço parece ter espinhos e o meu bebê só quer dormir comigo?

Onde dormiam os bebês há 100 mil anos? Não havia casas, não havia berços, não havia roupa. Sem dúvida dormiam junto à mãe ou sobre ela, em um leito improvisado de folhagem. O pai não devia dormir muito longe e a tribo estava a apenas a alguns metros de distância. Só assim podiam sobreviver durante o sono, o momento mais vulnerável da sua jornada. Pode-se imaginar um bebê sozinho, dormindo ao ar livre a 5 ou 10 metros da sua mãe durante seis ou oito horas seguidas? Ele não teria sobrevivido. Tinha que existir um mecanismo para que também durante a noite o bebê estivesse em contato contínuo com sua mãe.

Um bebê que a mãe pudesse deixar sozinho dificilmente teria sobrevivido por mais de algumas horas. Se alguma vez houve bebês assim, eles foram extintos há milhares de anos (bom, não todos. Existem alguns bebês que dormem a noite inteira espontânea e voluntariamente. Se o seu é um desses raros bebês, não se assuste, com certeza também é normal). Nossos filhos estão geneticamente preparados para dormir em companhia. Para um animal, o sono é um momento de perigo. Nossos genes nos impulsionam a manter-nos acordados quando nos sentimos ameaçados e a deixar-nos levar pelo sono somente quando nos sentimos seguros. Sentimo-nos ameaçados em um lugar desconhecido e muita gente tem dificuldade em dormir em hotéis porque “estranha a cama”. Temos dificuldade de dormir na ausência do nosso companheiro ou na presença de desconhecidos. Por que com os bebês seria diferente?

Geneticamente, o bebê de hoje tem os mesmos receios que o bebê de 100 mil anos atrás! Ele não sabe que o berço é seguro. Ele não sabe que seus pais o observam pela babá eletrônica e estão prontos para agir caso seja necessário. Ele não sabe quanto amor foi dedicado àquele quartinho lindo e todo decorado. Tudo que ele conhece é o balanço da mãe, o cheio da mãe, a batida do coração da mãe. O colo da mãe é sua casa, sua referência de segurança, o melhor lugar do mundo para ele ficar.

Nossos filhos estão geneticamente programados para acordar periodicamente. Nossos filhos herdaram os genes dos sobreviventes, dos vencedores na dura luta pela vida. Não dormem a noite toda sem acordar, mas têm, assim como os adultos, vários ciclos de sono ao longo da noite. Entre ciclo e ciclo passamos por uma fase de despertar parcial que é facilmente convertida em despertar completo. Até mesmo os especialistas em “ensinar as crianças a dormir” reconhecem esse fato; o objetivo não é fazer com que a criança não acorde, isso é impossível. O que eles querem é que, quando ela acordar, em vez de chamar os pais que fique calada até dormir de novo.

As crianças “estão de guarda” para ter certeza que a mãe não foi embora. Se o bebê sente o cheiro da sua mãe, se pode tocá-la, ouvir sua respiração, talvez mamar, volta a dormir imediatamente. Em muitas das mamadas, nem a mãe nem o bebê acordam completamente. Mas se a mãe não está, o bebê desperta completamente e começa a chorar. Quanto mais tempo tiver chorado até que sua mãe o acuda, mais nervoso ele ficará e mais difícil será para consolá-lo.

Se o normal fosse dormir sozinho e muitas horas seguidas, por que há tão poucas crianças que fazem o “normal” e tantas que aprendem a fazer uma coisa anômala? Se essa coisa da insônia infantil é realmente uma doença, é a praga mais terrível da história! É preciso esforço, método e consistência para que uma criança durma sozinha, porque isso vai contra sua tendência inata. E ela volta a chamar os pais na primeira oportunidade porque isso é o normal! Os cursos de sono não venderiam tanto se a maior parte dos bebês não tivesse esse “defeito”! Será mesmo um problema deles ou nosso?

Chegará uma idade em que seu filho não desejará dormir com você por nada nesse mundo. Chegará uma idade em que ele nem sequer desejará dividir o quarto com os irmãos. Esses fatos demonstram que que acordar chorando à noite e procurar a companhia dos pais não são comportamentos aprendidos por reforço, mas comportamentos inatos próprios de uma determinada idade e que desaparecem sozinhos no momento adequado.

*Texto adaptado do livro “Besame Mucho” do famoso pediatra espanhol Dr. Carlos Gonzales. Sugiro fortemente a leitura!

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