Profissionais “radicais” e o parto normal “a qualquer custo”

Nunca entendi a preocupação que algumas pessoas tem com supostos profissionais que são “muito radicais” ou “tentam o parto normal a qualquer custo”. Esses dias recebi uma ligação de uma gestante que procurava indicação de um médico que fosse uma espécie de meio termo, que não fosse nem “cesarista” nem “humanizado demais”. Demorei para entender o que ela queria dizer com isso, mas segue aqui mais ou menos a resposta que eu dei para ela:

– Quando o profissional “troca o chip”, reconhece que o modelo obstétrico brasileiro está inadequado e começa estudar a Medicina Baseada em Evidências, logo percebe que boa parte das coisas que aprendeu na faculdade é apenas opinião de especialista, está desatualizado e não encontra respaldo nas evidências cientificas sólidas mais recentes. Depois que esse profissional “sai da matrix”, nunca mais conseguirá oferecer menos do que a melhor assistência médica baseada nas melhores evidências disponíveis para suas pacientes. E isso inclui não realizar determinados procedimentos (seja no pré natal, seja no parto) de rotina ou simplesmente abolir por completo outros procedimentos (como a episiotomia, por ex). Isso não é ser radical. É ser coerente. É prezar pelo melhor para aquele binômio mãe/bebê.

– Eu não conheço nenhum médico que esteja disposto a arriscar seu nome, sua reputação, sua carreira, seu diploma, seu CRM, seu sossego e, principalmente, a vida e o bem estar de seus pacientes para “insistir demais” em um parto normal, caso a cesariana seja a melhor opção naquele momento. Vamos combinar também que, do ponto de vista do profissional, o parto normal dá muito mais trabalho, leva muito mais tempo e sacrifica muito mais sua vida pessoal. Portanto, não existe nenhum motivo plausível que possa justificar essa suposta insistência em algo, se esse algo não fosse realmente o melhor para todos os envolvidos.

– O que pode ser considerado “radical” pra você pode ser visto como normal na literatura ou mesmo em outros países (por ex: parto após 41 semanas, bolsa rota prolongada, parto pélvico, parto gemelar, etc). Um dos principais pilares da humanização consiste em respeitar o protagonismo da mulher e levar em consideração seus desejos e expectativas. Se a gestante possui um limite pessoal que seja diferente do limite do médico que ela escolheu (por exemplo, se ela não se sente confortável em ficar muito tempo com a bolsa rota, ou passar de 41 semanas, ou ter um parto normal pélvico – mesmo que seu médico veja com tranquilidade todas essas situações), ela pode e deve colocar esses limites para o profissional, pois sem dúvida alguma ela será respeitada. Essa mulher pode inclusive optar por uma cesariana eletiva – desde que esteja totalmente informada de suas escolha – que certamente será respeitada. Qualquer situação que fuja do protocolo é tratada num esquema de decisões e responsabilidades compartilhadas, após a gestante ter acesso a todas as informações disponíveis para fazer sua escolha. Ah, é importante lembrar que todo médico humanizado sabe fazer cesariana, ok?

– Intercorrências acontecem e fazem parte de uma estatística já definida, em qualquer via de nascimento. Mesmo que você ofereça a melhor assistência médica disponível e minimize todos os riscos possíveis, algumas intercorrências vão acontecer de vez em quando. Isso é um fato. Também é fato que a cesariana mal indicada está associada a até 4 vezes mais riscos para mãe e bebê. Chega de botar a culpa no parto, no médico ou seja lá no que for. Não podemos ter controle sobre tudo.

– Não podemos confundir radicalismo com má assistência. Um desfecho ruim muitas vezes ocorre porque o trabalho de parto não foi monitorado, porque o bem estar fetal não foi avaliado, não foi feito um partograma adequado, etc. Infelizmente, essa é a realidade de muitos hospitais. Falta pessoal, falta boa vontade, falta estrutura, respeito, humanidade, profissionalismo. Nesses casos, em que o parto se dá de maneira praticamente “desassistida”, obviamente que o número de desfechos negativos será maior.

Portanto, vamos parar de dizer que “fulano é muito radical”, “fulano insiste muito no parto normal”, “fulano faz parto normal a qualquer custo”, pois, na grande maioria das vezes, o buraco é muito mais embaixo!

 

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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