Quanto custa ter uma doula?

Quanto custa ter uma doula não é a única pergunta que você deveria fazer, mas também “quanto custa NÃO ter uma doula?” ou talvez “quanto VALE ter uma doula?”

Quanto vale ter alguém disponível para você num regime de 24 horas por dia, 7 dias por semana, durante 5 semanas consecutivas, e de forma intermitente por toda a gestação e pós parto?

É claro que todos nós que fazemos parte do movimento de humanização do parto e nascimento defendemos e lutamos que um atendimento digno e respeitoso seja direito e esteja acessível paras todas as grávidas, bebês e famílias, independente de suas condições financeiras. Mas nem por isso podemos deixar de valorizar o trabalho de quem investiu pesado em uma formação e um atendimento diferenciado, e de quem dedica uma vida inteira a uma “missão” que está longe de ser apenas romântica!

Talvez a maior parte das pessoas nunca tenha parado para pensar nessas questões, mas gostaria de dar alguns exemplos do que trabalhar com partos (seja a doula, o médico ou enf. obstetra) implica em nossas vidas, para que vocês entendam que nunca se trata apenas daquelas horas de trabalho de parto:

– Abrir mão de ter noites de sono tranquilas, dormindo sempre grudada com o celular no volume máximo, de sobreaviso esperando alguma gestante ligar. Aliás, o celular precisa se tornar uma extensão de você, assim como o carregador de bateria (deixar a bateria acabar? jamais). Você não pode sequer se dar ao luxo de colocar no silencioso ou assistir a um filme sem olhar para o display a cada meia hora.

– Não poder aceitar convites de última hora para passar um simples final de semana fora. Aliás, todo convite recebido (como um aniversário, um jantar, um cinema, uma confraternização) tem sempre a mesma resposta: “se eu não tiver parto, eu vou”! E quando você consegue ir, acaba optando por não beber nem mesmo uma taça de vinho e por voltar cedo p/ casa, porque nunca se sabe quando será surpreendido por uma ligação. Comprar o ingresso daquele show da sua banda preferida que estará na sua cidade com antecedência pagando o precinho do primeiro lote? Nem pensar!

– Acordar a noite toda, sair de um compromisso social para encontrar uma gestante que está com contrações de 5 em 5 minutos ou cancelar um dia inteiro de reuniões, e ainda assim aquele princípio de trabalho de parto ter sido apenas um alarme falso (os famosos pródromos). #semprerola

– Finais de semana e feriados são palavras que não fazem muita diferença para o seu vocabulário, pois os bebês não possuem o costume de escolher apenas dias úteis para nascer (e dá-lhe parto no carnaval, natal, réveillon, no seu próprio aniversário, no casamento do seu melhor amigo, etc).

– Cada vez que você sai de casa para atender um parto, você não faz a menor idéia de que horas irá voltar, mas mesmo assim precisa esquematizar toda a logística referente aos seus filhos pequenos, animais de estimação, etc.

– Embora alguns partos durem 4 horas, outros duram 30, e o preço cobrado será o mesmo, pois a disponibilidade do profissional era igual para ambos os casos! Afinal, parto não é taxímetro (ainda bem)!

– Se você tem outra profissão, precisa contar com uma dose extra de paciência do seu chefe/clientes/ pacientes/funcionários, pois de uma hora pra outra você pode ter que cancelar um ou dois dias inteiros de consultório, compromissos, reuniões de trabalho, aulas, consultas pessoais e etc. Inclusive, dependendo da atividade, a agenda desmarcada faz com que o valor que você irá receber por aquele parto sequer compense financeiramente.

– Manter uma rotina saudável e equilibrada de sono, alimentação e atividade física? Impossível! Você vira noites a fio, repõe o sono quando é possível, come o que estiver disponível na sua frente (ou passa inúmeras horas em jejum) e faz esportes apenas quando sobra espaço na agenda imprevisível.

– Todos os cursos de formação, aperfeiçoamento e reciclagem da própria área, dezenas de livros, materiais didáticos, congressos (a grande maioria em outras cidades) e o próprio material de trabalho utilizado significam um grande investimento tanto financeiro quanto de tempo na vida daquele profissional. Aliás, uma dica: antes de questionar o valor cobrado por qualquer profissional (desde seu médico, sua doula, seu dentista, o fotógrafo que fará seu ensaio de gestante ou cara que vai pintar a parede da sua casa), vale dar uma olhadinha em sua formação, seu currículo, sua experiência e o que ele tem para te oferecer!!! Principalmente quando se tratar de profissões ainda não regulamentadas – o que permite misturar na mesma categoria pessoas extremamente qualificadas e/ou experientes com outras recém formadas em pequenos cursos de finais de semana (como é o caso da profissão doula, por exemplo).

Por tudo isso, fico muito triste quando vejo alguém dizendo que as doulas deveriam atender de forma voluntária ou cobrando apenas um valor simbólico apenas porque amam o que fazem. Sempre existirão doulas em formação ou em início de carreira dispostas a trabalhar dessa forma para ganhar experiência, mas se não forem devidamente valorizadas, nenhuma doula terá condições humanas de continuar na profissão por muito tempo, e muito menos viver disso. Infelizmente, essa é a realidade: o amor não paga contas!

Vamos criticar sim o sistema que ainda não permite que essa seja a realidade da maioria e fazer a nossa parte para mudar a triste assistência obstétrica brasileira, e não os profissionais que estão na ponta do iceberg fazendo o melhor que podem com aquele limitado número de mulheres e bebês que conseguem atender individualmente. A sociedade precisa valorizar o trabalho das doulas e, acima de tudo, as doulas também precisam aprender a valorizar a si próprias!

Toda mulher merece uma doula! e toda doula merece ser valorizada!

• Ps1: não adianta perguntar o preço cobrado por doulas nesse post, pois isso depende completamente da formação e experiência de cada uma, da cidade (grandes capitais sempre possuem serviços mais caros, compatíveis com o custo de vida local), do que está incluso no pacote de acompanhamento (quantos encontros de pré natal e pós parto, etc), do tipo de serviço prestado e inúmeros outros fatores.

• Ps2: se vc está pensando em ser doula, não desanime com os tópicos acima, hahaha! Apesar dessa vida louca que temos, ver a felicidade estampada no rosto de cada família que se empodera desse momento e a serenidade de cada bebê que nasce cercado de amor e respeito não tem preço! Já ouviu dizer que ocitocina vicia? É a mais pura verdade! Amo essa vida e não trocaria por nada! Mas reflita sinceramente se você tem o perfil e a disponibilidade necessárias para essa missão!

• Ps3: Sobre a função da doula, ver posts anteriores.

Foto: Ana Paula Batista Fotografia

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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