Relato de Amamentação Exclusiva – 6 meses

Quando o Pedro fez 1 mês eu fiz um relato de como estava sendo a amamentação até ali. Hoje, atualizo esse relato após o cumprimento dos 6 meses de amamentação exclusiva, tal como preconiza a Sociedade Brasileira de Pediatria, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial de Saúde. Lembrando que estes mesmos órgãos recomendam que o leite materno continue sendo o principal alimento a ser oferecido ao bebê até 1 ano de vida (a alimentação sólida é complementar, e não o contrário), e que após 1 ano de vida ele continue sendo oferecido (agora sim como complementar aos alimentos sólidos) até 2 anos ou mais, e é assim que eu pretendo fazer. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Pela quantidade e importância dos benefícios extensamente comprovados da amamentação (tanto para a mãe quanto para o bebê, mas aqui eu vou frisar os benefícios para o bebê), eu vejo com cautela essa idéia de que a amamentação deve ser necessariamente prazerosa ou “boa para os dois”. Embora por um lado eu concorde com essa prerrogativa, também penso que, assim como a escolha do parto, esse é um compromisso que podemos racionalmente assumir pelo bem estar da criança que estamos botando no mundo, mesmo que seja a escolha mais difícil de se fazer em algumas situações. 

Não estou com isso sugerindo que as mulheres precisam amamentar (ou parir) “a qualquer custo”, pois existem situações extremas (de diversas ordens, que envolvem impacto importante na saúde física ou emocional dessa mãe) que devem ser pesadas nessa escolha. Concordo que existem algumas situações que eventualmente extrapolam o nosso controle ou a nossa vontade. Porém, estas são raras e devem ser diferenciadas as situações reais de impossibilidade de amamentar dos mitos extensamente difundidos pela sociedade e pela indústria da fórmula (vocês sabiam que até hoje é a Nestlé que patrocina os Congressos Brasileiros de Pediatria?). 

Por isso, acho perigosa a difusão dessa idéia de que a amamentação tem que ser boa para todos os envolvidos, pois embora não discorde em absoluto, estamos em um país onde a média de aleitamento materno exclusivo é de apenas 54 dias, a amamentação frequentemente é difícil até que se engrene e acredito termos um compromisso com o bebê que geramos de ofertar o melhor que pudermos para ele (e o leite materno é inquestionavelmente a melhor opção para ele)! ⠀⠀⠀⠀

Respeito a escolha de quem conscientemente OPTA por não amamentar, assim como mães adotivas, ou que possuem algum problema de saúde que impeça a amamentação, dentre outros casos, e reitero que esse texto não tem nenhuma dessas mulheres como público alvo. Aqui eu quero falar para quem deseja amamentar e deseja encontrar informações capazes de ajudá-las e encorajá-las nessa tarefa. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Amamentar para mim tem sido prazeroso. Mas nem sempre foi fácil! Nos primeiros dias a dor e a sensibilidade me pegaram também. Por isso a intervenção veio rápida: uma consultora em aleitamento para corrigir a pega e uma sessão de laser para a fissura. Para que a amamentação não se torne um tormento que justifique um desmame lá na frente, primeiro é importante que a mulher se muna de informações ainda na gestação, a respeito da pega adequada desde a primeira mamada, etc! Mas se mesmo assim o bicho pegar, é importante ter em mãos o contato de uma boa consultora! Os desconfortos relacionados à amamentação são, em boa parte das vezes, reversíveis e/ou temporários! Já os benefícios para o bebê são indiscutivelmente para a vida toda! Eu, particularmente, amo amamentar e tenho certeza que sentirei muitas saudades dessa fase lá na frente! Mas se não gostasse, estaria amamentando do mesmo jeito! ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Tenho refletido bastante sobre como nossas escolhas, receios e modos de enxergar as coisas podem ter um impacto tremendo sobre essa experiência…⠀⠀⠀

Primeiro vamos falar das escolhas: em primeiro lugar, eu ESCOLHI amamentar. O que significa que desde sempre eu estudei sobre isso, me informei, já sabia o que poderia ajudar ou atrapalhar, desfiz os mitos, tinha o telefone dos profissionais a quem eu poderia recorrer se precisasse e, o mais importante, desde o início já nem acrescentei no enxoval chupeta ou mamadeira, por saber da associação desses itens com o desmame precoce. Não tenho o objetivo de julgar as mães que por desconhecimento, “necessidade” ou escolha informada mesmo utilize com seus filhos. Mas como profissional tenho obrigação de passar a informação e, como mãe, o meu relato pessoal.

É bastante conhecido na literatura (e sobretudo na prática) que o uso de chupeta ou mamadeira podem causar confusão de bicos, e no caso da mamadeira, confusão de fluxo. Não vou me estender nesse assunto aqui (que vocês podem se aprofundar nos destaques e em outras fontes de informação), mas devo lembrar que nem sempre esse processo ocorre de um dia para o outro (embora às vezes baste uma ou poucas vezes para acontecer). ⠀

É considerado desmame precoce qualquer desmame que ocorra antes de 2 anos de vida do bebê, uma vez que essa é a idade mínima recomendada pela OMS para manter os benefícios do aleitamento materno. No entanto, mesmo para as mães que não pretendem amamentar por todo esse período, esse desmame pode vir muitíssimo antes do esperado, através da famosa frase “eu até queria ter amamentado mais tempo, mas meu filho largou o peito”. Bebês não largam o peito antes de 2 anos, a não ser que estejam passando por um processo de confusão de bico ou de fluxo. Mas nem sempre isso é tão óbvio para a gente. Vai acontecer com todos os bebês? Claro que não! Mas cabe a cada uma de nós a pergunta: eu quero correr esse risco? No meu caso, eu não quis. Então encarei as consequências da minha escolha, sabendo que eu precisaria ficar MUITO mais disponível para suprir toda a demanda de sucção não nutritiva do meu filho apenas com o meu seio, e passei os seis primeiros meses praticamente plugada nele por preguiça (confesso) de ficar ordenhando e treinando alguém para oferecer meu leite através de outros métodos seguros e compatíveis com a amamentação (copinho, seringa, colherzinha, etc). ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

No dia a dia, essa disponibilidade full time pode até parecer interminável, mas eu juro que no final das contas passa rápido. Sei que nem todo mundo vive em uma realidade onde é possível estar integralmente com o bebê após alguns meses, e se esse for o seu caso, não se culpe! Você está fazendo o seu melhor! Mas quero reafirmar, através do meu relato pessoal, que SIM! É possível criar um filho sem chupeta e sem mamadeira! ⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Sobre os receios, mitos e diferentes modos de enxergar as coisas: que atire a primeira pedra a mãe que nunca teve medo de não estar produzindo leite suficiente para suprir a demanda do seu bebê! Além de termos crescido no ápice da pressão da indústria para vender fórmulas artificiais e desmerecer o leite materno (muitas de nós sequer fomos amamentadas), não existe uma maneira quantitativa de sabermos quanto estamos produzindo de leite, e se isso está sendo suficiente para saciar o bebê. Diferentemente da fórmula, que ao ser oferecida você sabe exatamente quantos ml o bebê está tomando, amamentar é um ato de fé. Você simplesmente confia nos milênios de seleção natural que permitiram que toda mãe mamífera fosse capaz de prover o alimento dos seus filhotes por quanto tempo fosse necessário, e reza para que o bebê esteja crescendo e engordando em uma curva ascendente no dia da consulta com o pediatra. É assim que funciona, e foi assim para mim também.  ⠀⠀⠀

O que funcionou foi pensar que ter pouco leite é uma condição fisiológica EXTREMAMENTE RARA e contra a sobrevivência da espécie, então eu provavelmente não entraria nessa lista. Saber que a livre demanda era a chave para meu corpo produzir mais e mais (e aí mais uma vez entra a importância de não usar bicos artificiais). E nunca, jamais, pensar que todo choro é fome. É comum que mães de primeira viagem caiam nessa cilada, principalmente se ouvirem palpites de gente leiga. Sempre investigue outras causas prováveis do choro primeiro: sono, tédio, frio, calor, desconfortos gastro intestinais, hora da bruxa (excesso de estímulos), efeito vulcânico (falta de sonecas adequadas)… e deixem o peito ali, disponível sem hora marcada. Muito dificilmente o bebê está chorando de fome se você amamenta em livre demanda.

Não sentir o peito encher, não conseguir ordenhar a quantidade que você esperava na bomba, não ter o seio vazando…NADA disso mede produção de leite! Nos primeiros meses o meu peito nunca vazou e foram justamente os meses que o bebê mais ganhou peso! Nos outros meses começou a vazar (foi o caminho inverso do habitual) e o ganho de peso, embora adequado, foi comparativamente bem inferior!

Lembrem-se que 80% do leite é produzido durante a mamada, que sua produção de forma geral depende 100% do estímulo de sucção (feito pelo bebê ou pela bomba, lembrando que nada é tão eficiente quanto a sucção do bebê)! Por isso, quanto mais fórmula você der e mais bicos artificiais usar, menos leite você irá produzir! Até que de fato sua produção fique insuficiente mesmo e aí você acaba “confirmando” sua falta de confiança no seu corpo (a famosa profecia auto realizadora)! Entenderam o raciocínio? É um círculo vicioso! ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Falando nisso, o pré requisito da livre demanda é dar o peito sem olhar no relógio, né? Eu levei isso tão a sério que eu NUNCA, nunquinha mesmo, contei o intervalo de mamadas nesses 6 meses de amamentação exclusiva. Eu sei que esse intervalo variou de minutos a muitas horas, mas nunca fiquei contando ou me importanto com isso. Eu confio na auto regulação energética do meu bebê e acredito que se ele está pedindo é porque precisa, e ponto. Lembrem-se sempre que o seio materno não é apenas alimento físico com propriedades nutricionais importantes, é também fonte de imunidade (cada gota de leite possui centenas de anticorpos) e acalanto. É uma fonte importante de aconchego e segurança para esse serzinho que acabou de nascer. É alívio e remédio para dor, tédio, sono, medo…por isso, cada gota de leite importa, mesmo para mães que por qualquer motivo precisam complementar com fórmula. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Trabalhando tantos anos com partos e mães, e hoje passando por essa experiência na prática, cada vez mais eu percebo que a produção insuficiente está para a amamentação como a falta de dilatação está para o parto. Existe? Há controvérsias, mas vamos supor que em situações de exceção, sim! Porém, são muitoooooo mais raras do que a quantidade ABSURDA de casos que vemos por aí. Se pegarmos caso a caso para analisar em detalhes, vamos perceber que o que de fato existe é falta de apoio de profissionais verdadeiramente atualizados e qualificados, falta de informação correta, falta de incentivo da sociedade (e incentivo à práticas inimigas da amamentação) e, em alguns poucos casos, até falta de vontade materna mesmo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

E por último, quero reiterar que em momento algum esse texto tem como objetivo julgar as mães que por qualquer motivo que seja não amamentam, seja exclusivamente, seja de maneira alguma. Meu objetivo é, como profissional, incentivar as mães a amamentarem e, como mãe, dar o meu relato pessoal de como está sendo isso para mim. A informação deve ser passada, mesmo que para algumas pessoas esse tema possa ser sensível (e nesse caso, fica uma dica sincera: se a simples informação das recomendações ressoa doendo em alguma ferida sua, procure ajuda para trabalhar essa questão. Muitas vezes o julgamento está dentro de nós mesmos, e tendemos a enxergá-lo como vindo de fora). 

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