Sono do bebê na vida real

Eu sei, você está exausta. Eu também. Eu costumo dizer que eu estava preparada (no sentido de ter expectativas realistas) para todo o “lado B” da maternidade após anos de convívio com mães, ajudando a lidar com seus medos e ouvindo seus desabafos. ⁣

Particularmente, confesso que me preparei para ter um bebê que acordasse a noite toda, mas acreditava que isso iria acontecer a cada 3 horas ou algo assim. Eis que meu bebê nasceu e há 14 meses ele acorda de hora em hora (um pouco mais, um pouco menos, já que a vida não é um relógio, mas a média tem sido essa. Basicamente, ele desperta a cada ciclo de sono). Tem dias que entre ele dormir às 20:30 e eu ir deitar 0:30 eu contabilizo uns 6 despertares, fora os da madrugada adentro. Outros dias, ele chega a emendar algumas horas nesse primeiro bloco de sono. Aleatoriamente. Independente da nossa rotina (que é praticamente a mesma todos os dias), das sonecas, da alimentação ou de qualquer outro fator. Não há como prever os dias melhores ou piores, eu simplesmente nem crio mais expectativas. ⁣

No início, eu aceitei bem a questão da imaturidade do ciclo circadiano do recém nascido e fiquei aguardando a tal chavinha dos 3 ou 4 meses virar! Até que ela virou, só que ao contrário. Ele passou a acordar mais ainda. Tivemos fases em que ele acordava e passava simplesmente 2 horas seguidas desperto até dormir de novo, não importava o que eu fizesse…nesses dias, ele não aceitava sequer mamar (e eu ainda torcia para que ele mamasse, pois assim ele pegava no sono mais facilmente, mas nessa época não adiantava. Era andando pela casa, ninando, no escurinho, ou balançando na rede). A cada nova habilidade adquirida (os tais saltos de desenvolvimento), o padrão que já era ruim conseguia ficar pior ainda! A mesma coisa quando nasciam dentes (foram 8 dentes consecutivos desde os 4 meses), picos de crescimento, etc…cheguei à conclusão que nem valia mais a pena ficar nomeando nada disso, pois na prática não fazia diferença nenhuma (saber a causa não me ajudava a resolver o problema, nesse caso). ⁣

Quando o Pedro nasceu, eu tinha bastante consciência de que eu jamais faria nenhuma técnica de treinamento de sono com ele, pois estudava isso há muitos anos e sabia das consequências que elas poderiam trazer no estabelecimento do apego seguro, no fato de forçarem o amadurecimento do sistema neurológico do bebê, a questão do estresse tóxico, da crueldade do “desamparo aprendido” quando a criança entende que ninguém está por ela quando ela precisa e que por isso elas paravam de solicitar os pais nos despertares noturnos. Claro que tudo isso ocorre com mais frequência nos treinamentos de sono que envolvem deixar o bebê chorando ou sozinho no berço, mas ainda assim também podem ocorrer em algum grau em determinadas orientações que são ditas “gentis” (como diz uma amiga, certamente não foi o bebê que deu esse selo de gentil). ⁣

Eu já tinha lido alguns livros bacanas sobre o assunto (tem até o resumo aqui em 4 posts antigos sobre sono) e toda a teoria que envolve rotina, janelas de sono, higiene do sono, rituais noturnos e etc. Acreditem, eu fiz isso aí TUDO! A rotina aqui sempre foi até mesmo um pouco rígida! Todos os dias, eu iniciava um ritual do sono mais ou menos no mesmo horário (seguindo os sinais de sono que ele dava, claro), com os mesmos estímulos, a mesma música, a mesma sequência de eventos…nunca sequer saí de casa para voltar após 17h30 para não atrapalhar o tal do ritual. Fui bem rigorosa mesmo. Ele tirava todas as sonecas direitinho e eu sempre cuidei do ambiente da casa como um todo (sem excesso de estímulos, zero uso de telas) e do ambiente do sono dele (iluminação, ruído branco, temperatura agradável). ⁣

Até que quando ele estava perto de completar 6 meses, viajamos para um Resort por 5 dias e essa rotina foi obviamente quebrada! Por incrível que pareça, ele dormiu muito melhor naqueles dias, ainda que as sonecas fossem na extrema claridade, com música alta, os momentos do banho fossem aleatórios, o ambiente completamente diferente! ⁣

Eu nunca tive nenhum preconceito com a cama compartilhada, estava convicta da importância de amamentar de madrugada devido ao pico noturno de prolactina e seus efeitos na produção total de leite. Mas até então, em casa ele dormia naqueles bercinhos acoplados à cama e eu fazia CC só em algum momento da madrugada em que estivesse mais exausta.⁣

Quando voltamos de viagem, fizemos uma tentativa dele dormir na caminha montessoriana ao lado da nossa cama, e por fim eu me rendi a ir pro quarto dele de vez (para mim era mais vantajoso o marido dormir a noite toda e assumir ele umas horinhas pela manhã cedo para que eu dormisse um pouco também). No início, eu ficava num colchão no chão ao lado da cama dele (que também ficava no chão)! Depois, troquei por uma cama montessoriana tamanho Queen, onde desde então somos muito mais felizes! ⁣

Ainda temos uma rotina bem estabelecida aqui em casa, com poucas variações. Ainda faço um ritual de sono todos os dias com ele e todos os “cuidados” com o ambiente são tomados da mesma maneira, mas não mais com a expectativa de que isso melhore o sono dele de alguma forma, e sim pq já incorporamos tudo isso na nossa vida mesmo. ⁣

Eu me conecto com as necessidades dele e sigo o que aquele momento está pedindo. Isso foi algo muito legal desde o início da minha maternidade: nunca me prendi em caixinhas e tabelas de sono, sempre me conectei com o que eu observava das necessidades dele e ninguém se estressava com isso. Apesar das privações, isso traz uma leveza importante para o processo. ⁣

Muitos me perguntam como eu não enlouqueci nesses 14 meses acordando praticamente de hora em hora e conseguindo ser minimamente produtiva durante o dia. Do ponto de vista orgânico, eu realmente não sei. Com o passar dos meses, meu corpo parece que foi se acostumando com essa nova realidade fisiológica…não que eu não sinta cansaço, mas de alguma maneira eu eu me “acostumei”. Tomo meu café quando acordo, outro no meio da tarde e vamos lá enfrentar o dia. ⁣

Dormir junto nas sonecas diurnas nunca foi uma opção, pois além de eu não conseguir dormir durante o dia (isso deve ter acontecido no máximo umas 3x desde que ele nasceu), era a hora que eu tinha para resolver todas as outras demandas da minha vida (isso se ele não estivesse no colo, o que acontecia com bastante frequência)! A mesma coisa sobre dormir cedo junto com ele! Simplesmente não funciona por aqui! Eu preciso MUITO desse tempo para mim, mesmo que ele desperte de 50 em 50 minutos e eu tenha que ir lá rapidinho e voltar. ⁣

Mas o que REALMENTE fez diferença nisso tudo foi a mudança da maneira como eu passei a encarar essa fase. Confesso que eu passei muitos meses pensando o que eu podia estar fazendo de errado, se eu estava deixando passar alguma coisa, modificando inúmeras variáveis que podiam estar interferindo no sono (até mudança dos móveis para melhorar o Feng Shui, levar no centro espírita para tomar passe e pedir para minha vó benzer eu fiz). Fiz acupuntura (melhorava por alguns dias), osteopatia, usei homeopatia, massagem com lavanda, camomila no banho…⁣

Aguardei ansiosamente a introdução alimentar (quem sabe comendo ele ficasse com um sono mais pesado) ou qualquer outra coisa externa que pudesse ter influência no sono dele. Conversei com vários pediatras, cogitei ir num neuro, descartei doenças, condições e qualquer tipo de transtorno que pudesse justificar clinicamente esse sono picado. O crescimento dele sempre foi ótimo e o desenvolvimento acima da média. Ele acordava feliz e bem humorado, e não demonstrava estar sofrendo nada com esse padrão de sono picado.⁣

Até que um dia eu percebi que, no que dependia de mim, tudo já havia sido feito (dentro das coisas que eu considero aceitáveis). O fato é que ELE não tem nenhum problema. Quem tem um problema sou eu, que naturalmente como qualquer pessoa adulta gostaria de poder dormir algumas horas consecutivas. Mas com ele está tudo ok! ⁣

No dia que essa chavinha virou e eu comecei a usar o lema “aceita que dói menos”, minha vida mudou! Juro! Eu parei de ficar 1) mudando infinitas variáveis ou 2) aguardando algo acontecer…e aceitei que meu filho é assim, está bem assim, e que então eu vou aguardar o sono dele atingir a maturidade neurológica necessária para que ele consiga emendar um ciclo no outro sem despertar. Seja o tempo que isso leve…18 meses? 2 anos? 3 anos? 🤷🏻‍♀️ se tem uma coisa que a maternidade já me ensinou é como esse tempo passa rápido, no fim das contas. Minha vida vai, se Deus quiser, durar muitas e muitas décadas! Não são alguns poucos anos de privação de sono que vão me “destruir”. ⁣

Vocês devem estar se perguntando pq apenas eu acordo de madrugada, ao invés de dividir essa carga com o pai. Quando ele era menor e já tinha mamado, mas ainda assim permanecia acordado (aqueles episódios de 2 horas), a gente se revezava nas madrugadas. Com o tempo, o despertar dele começou a ser muito mais breve e ele voltava a dormir muito mais rapidamente comigo do que com o pai! Hoje, então, em cama compartilhada, eu não faço mais a menor idéia do que ocorre durante as noites. Como os despertares não são completos, eu nem sei dizer se eu dou o peito, se só acalento, se falo “a mamãe tá aqui” e ele dorme…só sei que acordo e vejo que trocamos de lado, às vezes minha blusa está levantada e coisas do tipo.

Três coisas fazem MUITA diferença para quem tem bebês que assim como o meu despertam tantas vezes: ⁣

1) não olhar no relógio, não pegar o celular, não ficar fazendo cálculos de quanto tempo se passou desde o último despertar. Parece besteira, mas garanto que acordamos muito mais descansadas sem essa informação e sem o estímulo da tela no cérebro. ⁣

2) cama compartilhada! Sei que não é um modelo que funciona para todo mundo, mas seria de enlouquecer se todas essas vezes eu tivesse que levantar, ninar, sentar numa poltrona para amamentar e etc! Seriam despertares completos de ambos, e não microdespertares que se embolam no sono noturno. Para mim, foi fundamental. E mais ainda ter colocado a estrutura do nosso sono no quarto dele, pois assim eu ganhei meu quarto de volta para fazer barulho, ver TV, abrir armário, tomar banho, namorar e o que quer que eu precise fazer até o horário que eu for dormir de fato. ⁣

3) deixar ele com o pai ou a avó e dormir um pouquinho de manhã cedo nos dias que dá. Tem dia que só dá meia hora, outros dias eu consigo dormir 2 horinhas. Seja como for, me dá um pouco de gás para continuar. ⁣

Resumindo, tudo ficou infinitamente mais leve quando eu passei a simplesmente aceitar essa condição e parar de lutar contra ela, esgotadas todas as alternativas “gentis” e sem jamais ultrapassar os limites que iriam contra tudo que eu acredito na criação e conexão com meu filho. Torço para que ele entre na estatística dos bebês que passam a emendar mais ciclos de sono a partir dos 18 meses, mas sabendo que pode se prolongar para além disso e que tudo bem, será só uma fase que um dia me lembrarei como algo distante. ⁣

Não tenho intenção que meu relato sirva de modelo para ninguém, só estou compartilhando como está sendo a nossa história e a nossa relação com o sono, para mostrar para vocês que esses bebês existem, que são normais, que a culpa não é sua, que não necessariamente você está fazendo “algo errado” e que nem todas as crianças respondem à rotina, rituais ou medidas de higiene do sono. Até mesmo os métodos mais cruéis de treinamento (de choro controlado) tem uma taxa de sucesso de 80%. Ou seja, 1 a cada 5 bebês vai despertar não importa o que você faça! E uma quantidade muito maior caso você respeite sua fisiologia. ⁣

Na verdade, embora eu acredite que existe sim algum efeito positivo em tudo isso (rotina, ritual, higiene do sono) para a maioria dos bebês, hoje eu sou extremamente convicta de que o principal fator determinante do bebê dormir mais ou menos é o fator “individualidade”. ⁣

Nessa saga, acabei estudando MUITO sobre esse assunto, como tudo na minha maternidade. Nos próximos posts, vou abordar um pouco das explicações fisiológicas e comportamentais das diferenças entre os sonos dos bebês, p/ que vocês possam não apenas ter ferramentas que ajudem a passar por isso da melhor forma, mas também ajustar as expectativas sobre esse assunto! 

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