Tecnologia e criação de filhos

Nas últimas semanas, tive contato com uma série de notícias a respeito  do impacto que o desenvolvimento tecnológico terá sobre nossas vidas e das gerações futuras nos próximos anos. Aquele futuro que imaginávamos tão distante da nossa realidade (onde carros andarão sem a necessidade de um motorista, em que parte significativa da força de trabalho será substituída por robôs e a inteligência artificial será uma realidade digna do saudoso desenho animado “Os Jetsons”) nunca esteve tão próximo. Há teorias que afirmam inclusive que estamos prestes a enfrentar um verdadeiro apocalipse tecnológico, que criará ocupações nunca antes imaginadas e impactará fortemente as profissões tradicionais. Se nas últimas décadas a forma como nos relacionamos com o mundo mudou numa velocidade maior do que a evolução dos últimos séculos inteiros, estamos diante de uma perspectiva em que cada ano vai equivaler a milênios, trazendo possibilidades que são tão incríveis quanto assustadoras.

No entanto, enquanto colhemos os diversos frutos benéficos que a automação e a globalização da informação nos trazem, é preciso questionar se não estamos indo longe demais em nossa dependência da tecnologia ou se não estamos deixando de lado aquilo que é verdadeiramente essencial – e que máquina nenhuma será capaz de substituir. Em se tratando de parentalidade (o conjunto de atividades desempenhadas pelos adultos de referência da criança no seu papel de assegurar a sua sobrevivência e o seu desenvolvimento pleno), essa é uma reflexão que devemos exercitar diariamente, sob o risco de criarmos uma geração de futuros seres humanos completamente despreparados para os novos desafios que o mundo passará a exigir.

Estamos diante de uma época em que um terço das crianças com menos de um ano de idade já sabe usar smartphones ou tablets antes mesmo de ter aprendido a falar e andar, sem percebermos a gravidade de estarmos sobrepondo habilidades tecnológicas à etapas importantes do desenvolvimento infantil. Poucos questionam o fato de que, enquanto a criança fica hipnotizada por aquelas telas em detrimento de estarem realizando atividades que priorizem a interação, a criatividade, a empatia e as habilidades sociais, ela não está aprendendo ou refletindo coisa alguma, e sim apenas absorvendo passivamente os mais variados estímulos – nem sempre benéficos. Quase não há mais espaço para a criatividade e a fantasia, e as prateleiras das lojas infantis estão repletas de 1) brinquedos e bonecos vinculados aos desenhos animados do momento e ao forte marketing que fomenta desde cedo o consumismo infantil 2) produtos cujo único objetivo é apertar botões enquanto o brinquedo responde acendendo luzes e fazendo barulhos diversos.  Vale ressaltar que embora o tempo máximo de TV/Tablets recomendado para crianças de até dois anos pelas principais associações pediátricas do mundo seja de ZERO, mais de 50% dos aplicativos da Itunes Store são direcionados justamente para crianças pequenas.

Como é triste olhar para um grupo de crianças no recreio e perceber que elas não estão mais brincando de pega pega,  pique esconde ou queimada, mas sim sentadas uma ao lado da outra passando o dedo em pequenas telas sem qualquer interação com o mundo real. Enquanto 57% das crianças de 5 anos sabe usar um aplicativo de celular, apenas 14% consegue amarrar o próprio sapato. Me lembro como se fosse ontem que aos 4 anos de idade tive a chance de optar por parar de comer carne quando descobri que o frango, o peixe, a vaca e o porco que estavam no meu prato eram aqueles mesmos animais com quem eu convivia e brincava na fazenda do meu avô. Atualmente, boa parte das crianças sequer tiveram  oportunidade de conhecer esses animais de perto, a não ser pelos desenhos animados que assistem diariamente, como “galinha pintadinha” ou “peppa pig”. Crescem sem saber de onde vem a sua própria comida e achando que a maçã, o brócolis, a batata ou a cenoura que estão ingerindo possuem sua origem na bandeja do supermercado. Diante desse cenário, como podemos esperar que as próximas gerações se importem em cuidar e preservar o meio ambiente se nossas crianças estão crescendo com tão pouca familiaridade e contato com a natureza?

Estudos demonstram que a criança brasileira passa mais de 5 horas por dia vendo TV. Se somarmos ao tempo de uso de tablets e celulares, esse número chegará fácilmente à metade do dia. Infelizmente, esse dado não é de se espantar, uma vez que é exatamente esse o exemplo que damos em casa. Quanto tempo dedicamos aos nossos filhos para transformar caixas em castelos, andar descalço na grama, observar o passarinho na árvore, saber o que ela aprendeu na escola ou para fazer uma leitura antes de dormir? A criança que hoje precisa de um penico com suporte para Ipad (sim, isso existe) para fazer suas necessidades ou de um suporte de DVD no banco traseiro do carro para não chorar enquanto passeia com os pais é a mesma que viu sua mãe amamentá-la enquanto estava de olho no celular por 80% do tempo.

Ainda no pré natal, as grávidas que possuem recursos fazem pelo menos 4 vezes mais exames de ultrassom do que o recomendado e se enchem de produtos que supostamente servem para facilitar o cuidado parental: a babá eletrônica que avisa cada ruído emitido pelo bebê, o app que controla o tempo de mamada do recém nascido, o andador que substitui aquele par de mãos que outrora apoiava os primeiros passinhos da criança, a cadeira de balanço eletrônica que simula o movimento executado pelos pais enquanto ninam o filho no colo, o sensor que detecta o tipo de choro do bebê e diagnostica suas possíveis causas. No entanto, enquanto determinadas inovações de fato automatizam tarefas e facilitam a vida de todos, outras parecem apenas reafirmar a epidemia que desconexão que vivemos nos últimos tempos. O quão sintomática é a necessidade de existir um aplicativo que evita que os pais esqueçam os próprios filhos no carro, por exemplo?

Não se trata de vetar a tecnologia ou viver no saudosismo de como as coisas aconteciam 30 anos atrás. É inquestionável que a tecnologia faz e fará parte da nossa rotina cada vez mais daqui para frente, e a maior parte das inovações e automações trazidas por ela são tão bem vindas quanto necessárias. Se trata apenas de não nos tornarmos (nós e nossos filhos) completamente reféns de tais dispositivos, nos lembrando sempre que a presença, as trocas afetivas, as brincadeiras lúdicas e a interação verdadeira com o mundo real são os aspectos mais importantes para o pleno desenvolvimento saudável desses seres em formação.

Texto de Érica de Paula – doula, psicóloga, educadora perinatal e acupunturista. Co-Autora do documentário “O Renascimento do Parto – 1”.

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